A minha mãe costumava dizer que não há nada tão feio como uma pessoa que não aceita a felicidade, que não se deixa ser feliz. Era assim que via as coisas, a minha mãe: não como brancas ou pretas, boas ou más, mas como bonitas ou feias. Era uma daquelas pessoas para quem o mundo e a vida constituem uma grande preocupação estética, para quem a moral e a beleza são uma só, no fundo, sem por isso se poderem considerar necessariamente fúteis.
Creio hoje que, apesar da sua experiência de vida superior e das boas intenções dos seus conselhos, a minha mãe não percebia muito do assunto. Digo-o porque falava da felicidade como se viesse numa caixa devidamente assinalada e protegida, à prova de más interpretações e azares; uma coisa que surge e, tão obviamente como o sol, está ali, veio para ficar, e que cabe a cada um aceitar ou não, abrir ou não, de acordo com princípios quase – não há outra forma de o dizer – morais. Ora, do pouco que me foi permitido ver até agora, a felicidade é tudo menos isso. Pode estar nos sítios mais imprevisíveis, disfarçada de percalços e decisões erradas; vestida até, ela própria, de “coisa feia”. É muito fácil não ver a felicidade, e talvez ainda mais fácil rejeitá-la sem o saber, ou julgar tê-la encontrado apenas para descobrir, afinal, que se tratava de outra coisa – vai daí, talvez a felicidade simplesmente não seja, por definição, duradoura. Mas todas as definições são perigosas. Bom, a verdade é que, embora admita poder declarar-me culpada de passar, porventura, demasiado tempo da minha vida pessoal (mas que vida não é pessoal, afinal?) a rotular caixas indevidamente, ou mesmo a devolvê-las, não consigo, ainda hoje, ver essa atitude como a minha mãe: ignoro se é feia ou bonita; sei-a, apenas, inevitável.
Pergunto-me se a minha mãe alguma vez terá encontrado a felicidade. Talvez não. E talvez por isso mesmo julgasse tão ultrajante a ideia de não lhe abrir a porta.
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“Segue-me de volta para o sol”, pediu ela. Mas ele já não a via e já não sabia o caminho. Já não partilhavam um sol.
Às vezes, o tempo estraga as caixas.
Acho que muita gente tem ideia de que os conselhos ou frases dos pais são os melhores do mundo, mas também eles erram pois são humanos. Também acredito que a felicidade esteja nas pequenas coisas, apenas não nos lembramos sempre disso porque são pequenas…
Já dizia o Vinícius: http://youtu.be/MCPjp4qTmsM
Gostei muito. Parabéns!*
Isto foi um devaneio que me surgiu a meio de uma aula no início do semestre (um dos muitos >_>). Embora o texto não tenha sido escrito com a minha própria mãe em mente (ela nunca me disse nada deste género, e tanto quanto sei, não pensa assim, sequer), uma das mensagens que pretendia transmitir era essa, precisamente: a de que os conselhos de pessoas com “experiência” não podem ter um valor automaticamente autoritário, porque experiência de viver não é sinónimo de experiência de saber viver.
A felicidade está nas pequenas coisas, sim (nas grandes também, mas essas anunciam-se bem mais facilmente), e como o Vinícius, de facto, tão claramente diz (boa escolha de música, heh), vai tendo fim. Não a felicidade propriamente dita, como conceito, mas os seus instantes; cada momento de felicidade tem um fim. É por isso que é importante abrir as caixas antes que o tempo as estrague…
Thank you, as always: por leres, por comentares… e, já agora, por todas as caixas, também. :) ***