Poesia: «Ombreiras»

ficávamos presos
nas ombreiras de portas
porque lá nos encontrávamos e
como crianças a brincar
não compreendíamos isso
esse conceito de largar

e eu ficava, tu ficavas
o tempo a gelar no vidro
a noite a fazer-se dia
o espaço entre nós a desfazer-se mudo
anedótico
nas nossas mãos absurdo

ficavas porque não sabias sair
e eu parava-te amarrava-te puxava-te
para dentro de dentro de mim
e não te deixava aprender
e a única língua era a dos nossos lábios
e se outras havia no mundo
eu não dei conta

e do tempo não mais falo
porque afinal não o havia
os relógios eram pedra
e nós eternidade contida num momento
sem passado nem futuro
como todos o deviam ser

como todos o deviam ser

ficávamos em ombreiras de portas
sem entrar nem sair
e lá estamos ainda
a minha imagem verde sombra da tua
presa num qualquer infinito
que não te sabe deixar ir

porque tudo o que estes olhos
se deixaram ver
foi como te fazer ficar
e hoje sei que tudo o que aprendi
tudo o que aprendi
não passa de —

o paraíso é de quem
não o procura

Curta: «Mensagem»

Um murmúrio no peito, um peso no estômago, fantasmas na cabeça. Quero dizer-te tantas coisas, mas todas as coisas perdem o significado ao serem ditas; tudo o que abre deixa de se ser.

A verdade de mim é verdade porque não há quem a conheça; se alguém a conhecesse, não seria a verdade; só se conhecem versões de mim, aquilo que sobra do processo de filtragem e deformação que a comunicação castrada com que nos amaldiçoaram nos impõe; pequenas e assustadas peças do puzzle, condenadas à partida a não bastar, a não unir.

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Curta: «You’re So Vain»

O chá jazia frio na mesa. Não gostava de chá, mas dizê-lo teria sido demasiado. Gosto dele frio, isso bastaria; sim, isso bastaria. Não gosto dele quente, porque negá-lo por mais do que a temperatura seria rejeitar o homem que o oferecia; seria rejeitá-lo a Ele.

A posição em S, sobre as próprias pernas despidas no sofá, estava longe de ser confortável, mas horas haviam passado sem que ela tivesse dado por isso – horas em que o chá ficara frio sem que ela o bebesse; horas em que, em vez disso, bebera e bebia tudo o que lhe saía da boca, como se de mandamentos em pedra se tratasse, Bíblias e Toras, Alcorões.

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Crítica: «The Complete Stories», de Truman Capote

Título Original: The Complete Stories
Título em Portugal: Contos Completos
Autor(a): Truman Capote
Ano de Publicação: 2004
Edição: Penguin Classics, 2005
Colecção: Modern Classics
N.º de Páginas: 320
Encadernação: Capa Mole
Preço: €13,63 (Book Depository)

  Classificação: 10/10 (Extraordinário)  

Um manipulador mestre da língua inglesa como nunca li nenhum […], e cuja versatilidade, até hoje, me surge também como incomparável, Capote é um daqueles autores de quem não basta ler uma coisa: é preciso beber tudo, saber tudo; porque é tudo tão bom, e é tudo tão belo, e custa tudo tão pouco a entrar: mesmo a tragédia, mesmo o mistério, mesmo a tristeza.

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