Título Original: Mrs Dalloway
Título em Portugal: Mrs. Dalloway
Autor(a): Virginia Woolf
Ano de Publicação: 1925
Edição: Clube do Autor, 2011
Colecção: Os Livros da Minha Vida
N.º de Páginas: 208
Encadernação: Capa Mole
Preço: €11,95 (Fnac)

  Classificação: 7/10 (Bom)  

[…] aquilo que mais me atingiu, e o que escolheria se tivesse de me decidir por um único pensamento a retirar deste livro, foi, precisamente, a constatação da solidão humana; a verdade imutável de que, por mais que nos associemos e abramos e tentemos honestamente entregar, haverá sempre todo um universo de ideias e sentimentos dentro de cada um de nós que nunca mais ninguém poderá conhecer: que, pura e simplesmente, não é exteriorizável, não é partilhável.

Foi durante a minha ressaca literária de The Great Gatsby (O Grande Gatsby, na tradução portuguesa) que o meu percurso de leitora se cruzou com a masterpiece de Virginia Woolf. Escaldada pela hiper-estilização e pelo vazio absurdos e extenuantes da obra – na minha opinião, incompreensivelmente aclamada – de F. Scott Fitzgerald, procurava, como o viajante de um deserto árido, um oásis que compensasse o esforço que despendera na absorção do clássico americano – capaz de me proporcionar, portanto, um prazer de (no mínimo) igual intensidade. Vagueando sem rumo pelos corredores recheados de uma livraria extensa, sem preconceitos relativamente à minha potencial escolha, deparei-me, subitamente, com uma nova edição portuguesa de Mrs. Dalloway: uma, se me é permitido dizê-lo, bastante atractiva ao olhar, com uma capa particularmente bem concebida (assumo, sem qualquer pudor, que a estética tem um peso razoável em todas as áreas da minha vida – não fosse eu, aliás, apreciadora de tantos tipos de arte, e também, há que dizê-lo, substancialmente mais perfeccionista do que a média dos mortais). Reflecti, então, sobre a adequação deste livro aos meus objectivos: relembro que estava determinada a ler algo de que pensasse, com um bom grau de certeza, ir gostar. Tratando-se de um clássico imortal da literatura inglesa, encontrava-se, naturalmente, na minha lista de obras para ler antes de morrer; ao mesmo tempo, era de uma autora do sexo feminino (caminho pelo qual raramente enveredo) com que, ainda por cima, nunca tivera contacto; e, para selar definitivamente o meu processo de decisão, a cadência fluida do texto, após leitura rápida da primeira página, prendeu-me imediatamente. Foi assim que, entre 20 de Setembro e 20 de Outubro de 2011, a minha atenção literária se encontrou focada no texto de 1925 de Virginia Woolf.

Quero começar por frisar que, apesar do estilo rápido e fluido que o caracteriza, Mrs. Dalloway não é um livro de fácil leitura: ou, pelo menos, não o é para quem pretender usufruir das suas qualidades ao máximo. Considero-me uma leitora razoavelmente voraz, e, no entanto, mantive sempre uma média de apenas dez páginas por noite – um ritmo gritantemente lento, até para um principiante. E porquê? Não, não por se tratar de um texto enfadonho, como se poderia imaginar – mas sim porque, pura e simplesmente, cada frase em Mrs. Dalloway é como uma pintura a óleo bela e rica que merece, a meu ver, ser devidamente observada e absorvida. Se The Great Gastby era um poço de figuras de estilo que se perdiam em peso e complexidade, na obra-prima de Virginia Woolf cada metáfora tem a leveza de um pássaro, a delicadeza de uma flor silvestre, a fluidez de um rio – todos estes, já agora, elementos que, como se de um subtil hino à natureza se tratasse, recheiam, de facto, a paisagem mental e abstracta por que Mrs. Dalloway nos guia (não é por acaso que há quem humoristicamente resuma toda a bibliografia de Virginia na frase “vamos pôr flores numa jarra”), durante este único dia passado numa Londres justamente descrita e rigorosamente marcado, em estilo bem inglês, pelo som das batidas metálicas do Big Ben.

Mas todo este embelezamento natural – que, na minha opinião, é uma das maiores e mais peculiares fontes de prazer a explorar neste título – forma também os alicerces de um afastamento da realidade externa que, de certa forma, define esta obra: de facto, Virginia Woolf mostra-se uma mestre insuperável na manipulação da língua e das palavras (irradiando até, no seu estilo solto, cadente e sem regras, presságios saramaguianos), adoptando pela primeira vez em Mrs. Dalloway a sua famosa técnica do “fluxo de consciência” – um fio narrativo ininterrupto a transmitir cruamente a sucessão natural de pensamentos de uma personagem –, que, ao se fazer cobrir do já mencionado véu de belíssimas metáforas, confere a toda a experiência de leitura um carácter febril, como se estivéssemos a viver o delírio hiperactivo e continuado de uma (várias?) mente alheia, simultaneamente presente e ausente no universo físico que a rodeia.

E é aqui, precisamente aqui, nesta exploração individual e única do âmago de cada figura que povoa a história, da mais insignificante à protagonista, nesta exposição democrática e sem pudor dos seus diferentes pontos de vista e formas de sentir, que é possível atingir a mensagem que, pessoalmente, mais devo a Mrs. Dalloway: a realidade inevitável e incontornável de que, em última análise, cada ser humano está só, sempre só; profunda e absolutamente só. Sim, encontrarão, muito provavelmente, milhares de revisões desta obra que apontam o contraste entre Clarissa Dalloway e Septimus (no fundo, entre a vida e a morte, entre o sofrimento disfarçado sob uma fachada de elegância e a total entrega e cedência ao mesmo) como o seu mais forte marco filosófico; que reforçam a demonstração da inutilidade da maior parte das vidas e das diferentes experiências de desespero que isso proporciona como seu principal foco: e, sejamos justos, todos esses são pontos de vista válidos e a ter em conta, dado que tanto o suícidio (e, de certa forma, o direito ao mesmo) como o espectro variável de formas de lidar com o sufoco existencial da condição humana – há tantas formas de sofrer quantas pessoas há no mundo – são temáticas fortemente presentes no texto. No entanto, aquilo que mais me atingiu, e o que escolheria se tivesse de me decidir por um único pensamento a retirar deste livro, foi, precisamente, a constatação da solidão humana; a verdade imutável de que, por mais que nos associemos e abramos e tentemos honestamente entregar, haverá sempre todo um universo de ideias e sentimentos dentro de cada um de nós que nunca mais ninguém poderá conhecer: que, pura e simplesmente, não é exteriorizável, não é partilhável. Ao primeiro contacto, este conceito, a ideia de que nunca ninguém no universo nos verá tal como somos, e que teremos invariavelmente nascido e morrido sem essa entrega absoluta, é assustadora e terrivelmente solitária: porém, no fundo, talvez seja precisamente isso – esse conhecimento incompleto; essa escuridão eterna a selar o nosso abismo mais profundo; esse guarda fiel que não escolhemos – que torna possível que nos amemos mutuamente. Se esta conclusão é ou não uma concepção ainda mais tenebrosa do que a sua premissa é uma decisão que deixo ao coração de cada um.

Num tom mais leve, e para finalizar, tenho de sublinhar que não há palavras para descrever a beleza cinematográfica de Mrs. Dalloway: ou talvez haja, e elas sejam, precisamente, as escolhidas por Virginia Woolf para o escrever. O seu carácter dinâmico e as suas cores são tão fortes e vivos que me é muito fácil, por momentos, esquecer que estou a criticar um livro e recomendá-lo para o Oscar de Melhor Fotografia.

Ainda que desprovida de grandes surpresas ao longo de toda a sua extensão, e apesar de, para a sua absorção total, poder exigir mais recursos mentais e sensitivos do que os que estamos dispostos a (ou capazes de) dispensar, esta é a obra-prima de uma mulher à frente do seu tempo que, tanto a nível estilístico como temático, conseguiu para si um lugar entre os maiores mestres da literatura. Não é obrigatório gostar, mas é um crime não tentar.

  • Classificação: 7/10 (Bom)
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