Título Original: アフターダーク (Afutā Dāku)
Título em Portugal: After Dark: Os Passageiros da Noite
Autor(a): Haruki Murakami
Ano de Publicação: 2004
Edição: Casa das Letras, 2008
Colecção: Ficção Estrangeira
N.º de Páginas: 228
Encadernação: Capa Mole
Preço: €16,90 (Fnac)

  Classificação: 7/10 (Bom)  

[…] somos expostos às realidades e aos dramas pessoais do mais curioso rol de personagens […]: todas elas, no fundo, simples seres humanos como nós, partes minúsculas da entidade gigante que é a Humanidade, em toda a sua variedade bela e trágica; e, por fim, somos trazidos de volta à superfície, aos primeiros raios de sol, à azáfama pouco romântica do dia-a-dia, à resolução; no fundo, ao bálsamo do amanhecer, à sua capacidade purificadora, que faz questão de nos lembrar de que, por mais escura que a noite possa ser, ela termina sempre e sempre terminará, dando lugar a novos inícios, a novas luzes, a novas horas […]. A continuidade existe, a redenção existe; quem se perde pode encontrar-se.

After Dark foi o meu primeiro Murakami. Não é, obviamente, que nunca tivesse reparado nas edições sucessivas destes títulos nas prateleiras das livrarias; no entanto, confesso que tenho sempre alguma desconfiança relativamente a autores contemporâneos – um preconceito que devo aos nomes da “literatura” light que parece ter invadido a nossa sociedade em décadas recentes, como Nicholas Sparks, Nora Roberts, Sveva Casati Modignani, Joanne Harris, etc.: a lista é, infelizmente, infinita. Por causa disto, dizia eu, e por ter achado o título do primeiro livro que vi associado ao seu nome, Kafka à Beira-Mar, demasiado sensacionalista (impressão que apenas confirmava as expectativas instaladas na minha mente pela dita ideia pré-concebida), sempre tendi a colocar o aclamado autor japonês na pilha do que não iria ler num futuro próximo. Ainda assim, as recomendações foram-se acumulando, e, um dia (no passado dia 21 de Outubro, para ser mais exacta), decidi dar-lhe uma oportunidade: afinal, terminara Mrs. Dalloway no dia anterior, e esperava-me uma viagem de mais de duas horas de autocarro; mal não me faria, e sempre teria alguma coisa com que me entreter.

Naturalmente, não escolhi After Dark por se tratar da obra-prima de Murakami – duvido, aliás, que qualquer conhecedor ávido do seu trabalho o considere como tal: esse lugar é normalmente reservado para uma das suas obras mais extensas, nomeadamente, Crónica do Pássaro de Corda, ou o já mencionado Kafka à Beira-Mar. Porém, a extensão do texto era precisamente um parâmetro cujo nível, numa primeira abordagem, não me convinha ser muito exagerado. E foi assim que, relativamente curto e com um título que considerei extremamente sedutor (tenho, afinal, uma fascinação pela noite e tudo o que com ela se relaciona), After Dark prendeu instintivamente a minha atenção.

Para minha enorme surpresa, li todo o livro num único dia, a um ritmo consistentemente acelerado. Escolho iniciar a minha revisão por esta característica principalmente por se tratar de um dado básico acerca da leitura de seja o que for; no entanto, devo dizer que ela é também, provavelmente, a maior qualidade que tenho a apontar ao (pouco) que fiquei a conhecer de Murakami. Sendo completamente sincera, como eu tenho, aliás, o hábito agridoce de ser sempre, o primeiro pensamento que me ocorreu, ao fim de algumas páginas, foi algo como, “OK, isto é algo que eu podia ter escrito no secundário numas horas de aborrecimento”: e, na verdade, mantenho essa opinião até este momento. Não há nada de extraordinário ou particularmente genial na técnica de Murakami; a sua forma de escrever é convencional, directa, económica, sem estilizações ou adornos; as descrições são simples e objectivas – no fundo, são, como a palavra o diz, descrições, pura e simplesmente –, e a narração rápida e direccionada. Não parece haver aqui um “estilo” próprio: e, no entanto, o resultado de tudo isto, de toda esta simplicidade e objectividade, é um virar de páginas surpreendentemente rápido; uma absorção automática de toda a informação, sem a necessidade de utilizar recursos extra do cérebro; uma capacidade – e vontade –, por parte de quem está deste lado, de ler sempre mais e mais. Para uma pessoa habituada a obras em que, quer pelo embelezamento da técnica, quer pela complexidade do tema, uma única frase pode ter de ser lida várias vezes até se instalar comodamente, em toda a sua clareza, num canto da mente, Murakami oferece uma mudança com o seu minimalismo, a sua visualização fácil e o seu entretenimento puro: uma mudança drástica e agridoce, sem dúvida, mas não por isso menos reconfortante.

Não quero com isto dizer que After Dark é desprovido de mensagem, ou que não suscita qualquer tipo de pensamento. Admito que essa possibilidade me ocorreu a meio do livro, quando todas as pontas soltas do enredo pareciam ainda dirigidas a lado nenhum, e qualquer objectivo do autor, a existir, se mostrava ainda envolto em mistério; porém, perto do final, este receio desvaneceu-se, e comecei a ver esta pequena história (ou este conjunto de pequenas histórias) como uma espécie de Crash, em que várias vidas se cruzam, umas de formas mais insólitas do que outras, num curto espaço de tempo – sempre sobre o pano de fundo de uma grande cidade, ao mesmo tempo largamente anónima e subtilmente conectada. Com efeito, as belíssimas imagens de Tóquio que Murakami projecta com tanta facilidade na nossa mente, descrevendo a capital nipónica como “um único organismo vivo” em que cada ser humano tem o papel duplo de ser ele próprio e, simultaneamente, uma pequena parte funcional dessa outra energia tão, tão maior do que ele, são, muito provavelmente, os meus excertos preferidos de toda a obra: através delas, somos, nas páginas iniciais e finais, apresentados, respectivamente, ao anoitecer e ao amanhecer deste enorme ser tentacular de cuja vida tantas vidas fazem parte; somos levados através do véu do crepúsculo para o eterno mistério da noite, em que todas as formas e pensamentos atingem novos contornos, e as possibilidades se tornam, como que por magia, infinitas; sobre um fundo ao mesmo tempo onírico e cruamente vulgar, somos expostos às realidades e aos dramas pessoais do mais curioso rol de personagens (uma adolescente calada e inteligente que sempre viveu na sombra da irmã mais velha; essa mesma irmã, uma jovem de uma beleza invulgar que, um dia, decidiu ir dormir e não voltou a acordar; um jovem tocador de trombone que pretende mudar de vida; a gerente bem-intencionada de um “hotel do amor”; uma prostituta chinesa vítima de agressão; uma empregada de limpeza em fuga, sabe-se lá de quê; um suposto trabalhador honesto com um lado escuro): todas elas, no fundo, simples seres humanos como nós, partes minúsculas da entidade gigante que é a Humanidade, em toda a sua variedade bela e trágica; e, por fim, somos trazidos de volta à superfície, aos primeiros raios de sol, à azáfama pouco romântica do dia-a-dia, à resolução; no fundo, ao bálsamo do amanhecer, à sua capacidade purificadora, que faz questão de nos lembrar de que, por mais escura que a noite possa ser, ela termina sempre e sempre terminará, dando lugar a novos inícios, a novas luzes, a novas horas: e, como Murakami acrescenta em tom de finalização, “ainda há tempo até ao crepúsculo seguinte”. É esta, para mim, a grande mensagem de After Dark: que a vida pode ser aleatória, e a noite escura e perigosa, mas haverá sempre uma nova manhã a limpar os seus vestígios. A continuidade existe, a redenção existe; quem se perde pode encontrar-se.

Numa nota menos pesada, o hábito – esse sim, muito peculiar – de mencionar músicas e os seus respectivos intérpretes (quase como se de um fundo sonoro se tratasse) ao longo de todo o texto é algo que me apanhou de surpresa em Murakami, e que, na sua originalidade, me proporcionou vários sorrisos; sou a favor da musicalidade de todas as coisas. Por outro lado, a atmosfera onírica criada por este autor é algo que, pessoalmente, me diz muito pouco: assumo-me fã da realidade nua e crua, mesmo enquanto forma preferencial de transmissão de todos os tipos de conceitos, pelo que tendo a ver a fantasia como uma adição desnecessária (enfraquecedora, até) à maior parte das obras. Ainda assim, After Dark não possui esta característica em demasia (nem nenhuma outra, na verdade), tendo mesmo as cenas mais metafóricas sido, apesar da minha mente muito terra-a-terra, bastante toleráveis. Com isto dito, a nível de pontos fracos, penso que os únicos que me resta apontar são a falta de credibilidade de alguns diálogos – muitos deles pareceram-me difíceis de imaginar na vida real; pelo menos, naquelas circunstâncias específicas – e uma certa ausência de atenção aos pormenores, como a duração real do tempo, por exemplo.

Apesar de não poder dizer que Murakami se tenha tornado num dos meus escritores preferidos com apenas esta leitura, After Dark é uma obra que vale, fundamentalmente, pela acessibilidade técnica e pela mensagem global de vitalidade e esperança. Convenceu-me, definitivamente, a explorar mais a bibliografia deste autor.

  • Classificação: 7/10 (Bom)

 

Nota: Devo avisar que a tradução portuguesa deste livro, de uma tal senhora que dá pelo nome de Maria João Lourenço, parece um acidente de viação – e quero com isto dizer que contém todos os tipos de erros imagináveis, desde puros assassínios ortográficos a “notas de tradução” irrelevantes e absurdamente extensas: para não mencionar o subtítulo acrescentado ao nome original da obra (“Os Passageiros da Noite”), cujo objectivo também me ultrapassa… será um bom dia para Portugal quando os seus tradutores se concentrarem na transmissão e deixarem a invenção de lado, ou, pelo menos, a limitarem aos seus próprios devaneios literários.

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