Título Original: Rain and Other South Sea Stories
Título em Portugal: N/A
Autor(a): W. Somerset Maugham
Ano de Publicação: 1921
Edição: Dover Publications, 2005
Colecção: Dover Thrift Editions
N.º de Páginas: 164
Encadernação: Capa Mole
Preço: €5,17 (Book Depository)

  Classificação: 8/10 (Muito Bom)  

Maugham é o contador de histórias por excelência; o embaixador da natureza humana; o poeta em prosa da Vida em toda a sua magnitude. Mesmo num contexto aparentemente tão restrito como o que serve de base aos contos desta compilação, sob a magia da sua criação, todas as emoções humanas encontram lugar e ganham contornos palpáveis; de uma forma tão fácil e natural como o cenário sobre o qual são apresentadas, diferentes realidades e formas de felicidade conhecem-se, enamoram-se e separam-se; toda a tragédia e beleza do mundo cabem nestas escassas palavras. E isso, sim, é arte.

Foi o meu pai, ele próprio um leitor ávido na sua juventude, que me convenceu, já há alguns anos e após inúmeras recomendações, a experimentar Maugham. Ele lera – várias décadas antes, note-se – uma série de contos do autor cujos nomes já não recordava, mas cuja beleza descritiva, garantia, se mantinha tão viva na sua mente como se do dia anterior se tratasse. Peguei, então, fará agora quatro ou cinco anos, em The Painted Veil (O Véu Pintado, na tradução portuguesa), um dos títulos que mais popularizou o escritor inglês, e foi esse o meu primeiro contacto com a sua fluência narrativa admirável, e, naturalmente, com a sua análise única e tão verdadeira da natureza humana, em todos os seus contrastes e semelhanças, flexibilidades e defeitos. Seguiu-se um período relativamente longo em que não explorei mais a bibliografia de Maugham, até que, no Verão passado, li Of Human Bondage (Servidão Humana), a obra-prima que viria a tornar-se no meu livro preferido de sempre, e The Razor’s Edge (O Fio da Navalha), o seu último “grande romance”. No entanto, durante todo este tempo, havia algo que me continuava a escapar, e que era, precisamente, o que o meu pai tanto referira: os contos; os seus maravilhosos contos. Com o objectivo de mudar isso, comprei, então, Rain and Other South Sea Stories, uma compilação datada de 1921.

Convém começar por dizer que, com Of Human Bondage, Maugham se tornou, e se mantém até hoje, o meu autor preferido. Mais do que um escritor – ou um filósofo, como o são muitos, incluindo alguns dos que mais respeito –, Maugham é um contador de histórias por excelência, e ninguém, absolutamente ninguém, cumpre essa função como ele. Mesmo nos seus enredos mais simples (ou, melhor dizendo, menos dimensionais e significativos), a sensação de que estamos a ler o trabalho de um mestre permanece sempre, como uma marca de requinte, um selo de qualidade: seja nas descrições quase palpáveis de locais e pessoas, seja na facilidade e fluidez narrativas constantes, em que, até hoje, o considero incomparável. Rain and Other South Sea Stories não é excepção a esta regra. Resultado das inúmeras viagens realizadas por Maugham ao longo de toda a sua vida, esta é uma selecção de pequenas histórias escritas em 1921 (e publicadas, inicialmente, sob o título The Trembling of a Leaf) sobre a existência nas ilhas do Pacífico, mais proeminentemente as de Samoa e do Havai: a cultura dos nativos e o seu choque com a ocidental, e com os ocidentais; a lentidão relaxante e despreocupada de uma vida num cenário quase virgem, rodeado de nada e temperado por chuva quente; a influência dos missionários nas povoações, e a sua hipocrisia; as histórias de amor, das mais belas e trágicas às mais vulgares e risíveis, entre cavalheiros “civilizados” e jovens nativas; no fundo, o cocktail invariavelmente resultante da mistura absoluta de raças, naturezas, temperamentos e hábitos tão diferentes sobre um pano de fundo quente e paradisíaco, como o que se verificava nestes locais quando Maugham os visitou, no final da época de colonização.

Admito, desde já, que não sou adepta de cenários exóticos, antes pelo contrário: sempre senti uma atracção nula por ambientes tropicais, e continuo, ainda hoje, a rejeitá-los como destinos preferenciais a visitar, ao contrário da vasta maioria das pessoas da sociedade em que me encontro inserida. Sou, definitivamente, uma “pessoa de cidade”, a quem o conforto e a tecnologia dizem muito, e a agitação humana e as opções culturais fazem toda a falta. Ainda assim – e estou convencida de que só Maugham, com a sua magia, seria capaz disto –, Rain and Other South Sea Stories conseguiu prender o meu interesse em cada conto, e as descrições físicas dos sítios e das gentes, criando contornos tão fáceis e vivos na minha mente, cumpriram todas as minhas fantasias de leitora. Das seis histórias que realmente constituem a obra (pois duas das suas oito partes são apenas pequenos textos de poucas linhas a servir, respectivamente, de prefácio e epílogo), quero, nesta crítica, destacar três: “Red”, “The Fall of Edward Barnard”, e “Rain”, o conto que dá nome à compilação.

Após alguma ponderação, concluí que “Red” é, efectivamente, o meu preferido deste conjunto de pequenos tesouros. Apesar de não se tratar, definitivamente, do mais consequente ou simbólico, foi, sem dúvida, o que mais me prendeu e tocou, do início ao fim: trata-se de um retrato único do amor humano, da passagem do tempo, e, como não podia deixar de ser, da relação entre um e outro. Há nele uma abordagem simultaneamente bela e trágica da ironia da vida que me é irresistível, e a “surpresa” final (que, naturalmente, não revelarei aqui), ainda que algo previsível, é, acredito, capaz de fazer qualquer coração sensível bater mais rápido.

“The Fall of Edward Barnard”, por outro lado, assume um tom satírico, menos cru, mais calculado: possuindo, no entanto, excelência comparável naquilo a que se propõe. Se, por um lado e como é muitas vezes referido, este conto parece ser um presságio da ideia que, muitos anos mais tarde, viria a servir de base a The Razor’s Edge, também há nele um travo muito forte e inegável a A Cidade e as Serras, a maravilhosa obra de 1901 do nosso fantástico Eça. O conceito é o mesmo: o contraste entre a civilização e a ruralidade; a tecnologia e a natureza; a agitação e a paz. Também aqui, com uma última frase profundamente sarcástica de Maugham, que sela a ouro a intenção satírica da história, a felicidade encontrada na pureza é dada a conhecer, compreendida e elogiada; o autor convida-nos a ponderar o que é mais importante para cada um de nós enquanto indivíduos, e a reflectir sobre o sentido da vida. Que qualquer um destes exercícios mentais resulte da leitura de um simples conto é uma vitória para qualquer escritor, e com ela Maugham revela-se, mais uma vez, um mestre extraordinário e multifacetado.

Por fim, “Rain”, o primeiro de todos estes contos a ser apresentado, adquire, talvez, particular importância para mim por abordar um tema que me interessa especialmente, e transmitir uma ideia cuja propagação considero capital: a hipocrisia da Igreja, e os telhados de vidro que recobrem toda a religião. Esta é uma história de choque e intolerância entre um missionário e uma mulher por ele considerada “imoral”, vivida e contada ao longo de uma tempestade tropical, como pode inferir-se pelo título, e com um final surpreendente e, este sim, altamente significativo. O valor social deste conto é, provavelmente, o mais alto de todos os incluídos no conjunto, sendo a sua mensagem, infelizmente, tão válida hoje como há quase um século, quando foi escrito.

Os restantes contos (“Mackintosh”, “The Pool” e “Honolulu”), apesar de não me terem marcado tanto como os acima mencionados, constituem também retratos muito especiais das relações humanas a variadíssimos níveis, e são, sem dúvida, merecedores da mesma atenção literária. A preferência que manifestei é, naturalmente, puramente pessoal; objectivamente falando, creio que todas as histórias incluídas nesta compilação valem muito mais do que o tempo que demoram a ser lidas, e encorajo fortemente o contacto com elas.

E eis que, finalmente, compreendo perfeitamente as palavras do meu pai quando, desde há tantos anos, me repetia: “Tinha dezasseis anos quando li aquele conto, mas nunca vou esquecer a frase com que terminava”. De facto, não há como negar: Maugham é o contador de histórias por excelência; o embaixador da natureza humana; o poeta em prosa da Vida em toda a sua magnitude. Mesmo num contexto aparentemente tão restrito como o que serve de base aos contos desta compilação, sob a magia da sua criação, todas as emoções humanas encontram lugar e ganham contornos palpáveis; de uma forma tão fácil e natural como o cenário sobre o qual são apresentadas, diferentes realidades e conceitos de felicidade conhecem-se, enamoram-se e separam-se; toda a tragédia e beleza do mundo cabem nestas escassas palavras. E isso, sim, é arte.

  • Classificação: 8/10 (Muito Bom)
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