Título Original: Of Human Bondage
Título em Portugal: Servidão Humana
Autor(a): W. Somerset Maugham
Ano de Publicação: 1915
Edição: Livros do Brasil
Colecção: Dois Mundos
N.º de Páginas: 568
Encadernação: Capa Mole
Preço: N/A

  Classificação: 10/10 (Extraordinário)  

Como seria de esperar, questionei-me, desde o início, acerca do que seria a “servidão humana” […] a que Maugham se referia. […] Por fim, a resposta tornou-se aparente: a escravidão do Homem é a sua própria natureza, sem tirar nem pôr; a sua impotência perante o seguimento da vida, por mais que tente dar uso à sua razão e poder de decisão; […] a forma como nos transformamos em meros fantoches nas mãos dos nossos próprios sentimentos e emoções (compaixões que nos amolecem, paixões que nos enlouquecem, medos que nos controlam, ódios que nos limitam, amores que nos guiam) […]; no fundo, a escravidão para com uma vida sempre e para sempre maior do que nós, onde todo o planeamento é inútil, e a traição da expectativa sempre possível. O Homem é a escravidão humana.

(Texto escrito a 21 de Julho de 2010)

Há muitos tipos de livros. Com particular interesse para este artigo, há aqueles que nos fazem companhia, quase como se de outros seres humanos se tratasse, e, no fim, deixam um travo amargo de saudade antecipada. Servidão Humana, de W. Somerset Maugham (Of Human Bondage, no original), acompanhou-me ao longo desta época de exames, como um amigo de cabeceira que visitei quase todas as noites e cuja simples existência proporcionou uma familiaridade reconfortante em momentos em que esta fazia falta. Ontem terminei-o, e não posso deixar passar esta ocasião sem expressar alguns dos muitos pensamentos que esta obra-prima de Maugham, como todos os bons livros, me suscitou.

Ler Servidão Humana é como crescer com Philip Carey, o protagonista, em si tão humano e dimensional que às vezes parece ter existido na realidade (e, na verdade, talvez tenha existido – esta é uma obra parcialmente auto-biográfica); os seus desejos e sucessos, defeitos e atribulações são, todos eles, verosímeis, talvez em parte porque descritos pela graça literária de Maugham, que, aqui, se revela um mestre na demonstração da natureza humana em toda a sua mutável essência. Após procura e experimentação infrutíferas, ao longo de parte da sua juventude, do caminho a seguir, Philip acaba por estabelecer-se em Medicina, uma profissão que anteriormente em nada o atraíra – e até nisto encontro uma forte identificação pessoal, que apenas cresce com as descrições subsequentes de Maugham (ele próprio médico) do mundo da prática médica e do profundo contacto humano que esta proporciona com aquilo que é a “verdadeira realidade” das pessoas quando livres de todas as suas máscaras sociais. Philip é um protagonista com quem conseguimos identificar-nos, e a tangibilidade de todas as suas emoções estabelece o laço final com o leitor, tornando-se quase impossível não sentir exasperação ou, pelo contrário, orgulho dele quando as diferentes situações assim o ditam. Parece-me ter Servidão Humana o condão, exclusivo das grandes obras literárias, de ser simultaneamente universal e uma experiência profundamente pessoal.

Há uns anos, teria achado o final do livro insultuoso para com a capacidade e ambição de Philip, e talvez tivesse pressentido na sua escolha final um desperdício de potencialidades, mas, hoje, sou já mais sensata do que isso: o que achamos ter o dever de fazer para concretizar o nosso potencial e viver a vida ao máximo não é sempre sobreponível com o que nos apresenta a maior possibilidade de felicidade, e a necessidade de escolha, imposta pelo tempo limitado da existência humana, é óbvia e cruel. É esta a verdade imutável com que Servidão Humana escolhe encerrar, numa visão talvez desencantadora para as mentes mais jovens e férteis, mas, em última instância, prática e real. Com a maturidade, Philip abandona os ideais românticos e sonhos da primeira juventude, percebendo estar numa bifurcação entre a concretização destes e a perseguição daquilo por que a sua alma, “caseira” sob todas as camadas de espírito de aventura e descoberta, anseia realmente. A primeira opção levaria, certamente, a uma vida mais rica e complexa, a um desenho de existência mais intrincado e exótico, mas é na segunda que se encontra a sua verdadeira possibilidade de estabilidade e felicidade, igualmente sem dano para a sua dignidade. No fundo, o que Philip compreende é a necessidade de priorizar os objectivos, pois não lhe será nunca possível atingi-los todos, já que não são compatíveis; abdica, então, com admirável coragem, das suas antigas fantasias de longas viagens perdido em terras distantes, que antes julgara necessárias à sua realização como ser humano, em detrimento da mais simples das felicidades (o conforto estável de uma família), numa “derrota melhor do que muitas vitórias”. Não podemos ainda esquecer que este é um final aberto, e tem de ser compreendido como tal pela própria essência do livro: se há coisa que este nos mostra é que a vida, na sua aleatoriedade, pode vencer quaisquer planos para o futuro, e que, até cessar de vez, ela corre, corre sempre, impassível a sentimentos e eventos, constante apenas na sua persistência animal, e que nunca sabemos onde nos vai levar. Philip está agora ciente disto, e é com noção do espectro imprevisível de possibilidades que se abandona à sua escolha.

Como seria de esperar, questionei-me, desde o início, acerca do que seria a “servidão humana” (também possível de traduzir para “escravidão humana”, entre outros termos semelhantes) a que Maugham se referia. A minha visão sobre isto foi-se alargando ao longo da obra, tal como a de Philip sobre o mundo, num crescimento simultâneo e mútuo entre leitor e protagonista. Por fim, a resposta tornou-se aparente: a escravidão do Homem é a sua própria natureza, sem tirar nem pôr; a sua impotência perante o seguimento da vida, por mais que tente dar uso à sua razão e poder de decisão; a impossibilidade, já acima referida, de concretizar tudo o que sonhamos, como se de um capricho cruel da natureza, que nos dá a mente que torna esses sonhos possíveis e simultaneamente nos impede de os realizar, se tratasse; a forma como nos transformamos em meros fantoches nas mãos dos nossos próprios sentimentos e emoções (compaixões que nos amolecem, paixões que nos enlouquecem, medos que nos controlam, ódios que nos limitam, amores que nos guiam), um preço às vezes demasiado alto a pagar para “se ser diferente dos animais”; no fundo, a escravidão para com uma vida sempre e para sempre maior do que nós, onde todo o planeamento é inútil, e a traição da expectativa sempre possível. O Homem é a escravidão humana.

Para finalizar, devo acrescentar que o livro se recobre ainda de outras inúmeras “lições de vida”, valiosas precisamente porque modestas, como demonstrado pela implícita defesa concomitante, ao longo de todo o texto, de que a sua utilidade só é real se descobertas pelo próprio – e a estimulação à introspecção daí resultante é das melhores dádivas que a literatura pode oferecer. Servidão Humana é, em última análise, uma obra que podemos terminar a saber mais sobre nós próprios.

  • Classificação: 10/10 (Extraordinário)

 

Nota (19.11.2011): Comprei este livro na Feira do Livro do Porto, a 10 de Junho de 2010. Dado que foi adquirido no stand de um alfarrabista (por apenas €5), é-me impossível divulgar o seu preço no mercado: até porque, tanto quanto sei, esta edição, da muito saudosa colecção Dois Mundos, já não se encontra oficialmente à venda. Entretanto, por puro coleccionismo, adquiri um exemplar da nova edição incluída na belíssima colecção Vintage da ASA; no entanto, foi esta velhinha tradução da editora Livros do Brasil que realmente li, pelo que é esta que apresento. Não podia ainda deixar este texto ser publicado sem acrescentar que, quando o li, Servidão Humana se tornou – e se mantém, até hoje – o livro da minha vida, e que, assim sendo, tem, para mim, um valor incalculável. Espero que muitos mais tenham o privilégio de o ler, e que possam usufruir dele (e aprender com ele) tanto quanto eu.

Anúncios