Título Original: 国境の南、太陽の西 (Kokkyō no Minami, Taiyō no Nishi)
Título em Portugal: A Sul da Fronteira, A Oeste do Sol
Autor(a): Haruki Murakami
Ano de Publicação: 1992
Edição: Casa das Letras, 2010
Colecção: Ficção Estrangeira
N.º de Páginas: 248
Encadernação: Capa Mole
Preço: €15,90 (Fnac)

  Classificação: 8/10 (Muito Bom)  

A Sul da Fronteira, A Oeste do Sol leva ao extremo o conceito profundamente romântico – mas, ao mesmo tempo, terrivelmente assustador – da felicidade exclusivamente dependente da presença de um outro ser humano, em cuja ausência existência alguma poderá ser pacífica e inteira, por mais que se tenha ou faça na tentativa de o substituir. Há sempre “algo” que falta: um pedaço de alma, um espaço no coração, todo um arco-íris de estados de espírito, um perfume, um sorriso, um olhar que só aquela pessoa pode oferecer; uma sensação de estar vivo que só ela pode soprar de novo para dentro de nós. Até onde estamos dispostos a ir por essa sensação?

Decidida que estava a conhecer um pouco mais o trabalho de Murakami após o contacto leve e fugidio que After Dark me proporcionara, eis que escolhi, de entre a sua restante bibliografia, A Sul da Fronteira, A Oeste do Sol. Esta opção não foi, naturalmente, aleatória: tratava-se de um título que já alguns amigos meus tinham lido e recomendado; ao mesmo tempo, não era demasiado longo, e a sinopse deixara-me suficientemente interessada.

Como já esperava, encontrei em A Sul da Fronteira, A Oeste do Sol uma profundidade e peso que haviam sido, talvez, os principais ingredientes em falta em After Dark. No entanto, como em (quase) tudo na vida, também aqui há um preço a pagar: se, por um lado, a leitura deste livro foi mais enriquecedora e a sua mensagem mais duradoura, o ritmo a que o absorvi foi necessariamente mais lento; li cerca de um capítulo por noite ao longo de duas semanas, com um ligeiro sprint final, e não creio que uma leitura mais rápida me tivesse sido vantajosa, já que esta é, de facto, uma história pesada e humanamente sofrida, que merece vários momentos de reflexão da nossa parte para que dela possamos usufruir completamente.

A temática não me era de todo estranha: na verdade, o cenário das almas-gémeas de infância separadas irreversivelmente pela vida e pelo tempo, com consequências e dano permanentes para ambas, já me fora apresentada em Byousoku 5 Centimeter (5 Centímetros por Segundo), um filme anime do justamente aclamado Makoto Shinkai, cuja adaptação manga, da mesma autoria, é dos meus títulos preferidos de sempre dentro do género (para os apreciadores, encontro-me actualmente, no âmbito do site MangaPT, a traduzir/editar a mesma: podem aceder aos capítulos aqui). Sendo completamente honesta, é-me quase impossível acreditar que um foi criado sem conhecimento do outro, tão semelhantes são o enredo básico e as personagens das duas obras, assim como o sentimento geral a elas associado – ainda que levado mais longe e sempre com um tom bastante mais negro no texto de Murakami, talvez porque dirigido a um público mais específico. Não é com qualquer intenção pejorativa que faço a comparação: pelo contrário, este é um assunto que me fascina infinitamente pela sua ligação profunda à natureza humana e da vida em si, ambos universos tão obscuros quanto irremediavelmente atractivos, e em cujos mares sem fim adoro navegar e divagar; com isto dito, quer o Takaki e a Akari de Shinkai, quer o Hajime e a Shimamoto de Murakami me mostraram momentos de grande riqueza emocional, desde a mais pura e inocente ternura da infância, tão crua e nua por definição, ao desencanto e desespero obrigatoriamente sentidos no vazio de uma vida adulta para sempre indefinida e incompleta, porque o que falta é algo que já se perdeu. A Sul da Fronteira, A Oeste do Sol leva ao extremo o conceito profundamente romântico – mas, ao mesmo tempo, terrivelmente assustador – da felicidade exclusivamente dependente da presença de um outro ser humano, em cuja ausência existência alguma poderá ser pacífica e inteira, por mais que se tenha ou faça na tentativa de o substituir. Há sempre “algo” que falta: um pedaço de alma, um espaço no coração, todo um arco-íris de estados de espírito, um perfume, um sorriso, um olhar que só aquela pessoa pode oferecer; uma sensação de estar vivo que só ela pode soprar de novo para dentro de nós. Até onde estamos dispostos a ir por essa sensação? De que abdicaremos pela certeza de que não desperdiçámos o pouco tempo que nos é dado no mundo? Quem somos capazes de magoar pela nossa única hipótese de felicidade real? E até que ponto somos, na verdade, senhores do nosso julgamento quando sentimentos tão sublimes e poderosos se apoderam de tudo o que somos? Até que ponto somos culpados?

São estas algumas das questões com que Hajime se depara quando, casado e com filhos, com uma vida estável e, aos olhos de todos os outros, perfeita, é surpreendido pelo reaparecimento de Shimamoto: a sua alma-gémea perdida; a sua pessoa; a chave da sua felicidade. Talvez por se tratar de um texto narrado na primeira pessoa pelo protagonista, sem contenções nem preconceitos, a experiência de todos estes dilemas e processos mentais pelo leitor torna-se pessoal e emocionalmente opressiva; ao nos mostrar sequencialmente cerca de quarenta anos da história de Hajime, desde o seu nascimento até à idade adulta, Murakami dá-nos um ponto de vista privilegiado sobre as relações causa-efeito entre os eventos da vida da personagem e as consequências dos mesmos na formação do seu carácter e personalidade, tornando plausível todo o desenrolar de acontecimentos a que somos expostos. A obra culmina num final inesperado e indefinido (como a própria vida, talvez?), deixando, por trás de si, várias perguntas sem resposta: uma técnica recorrentemente usada na literatura para aumentar o mistério e/ou permitir a interpretação aberta e pessoal de várias questões, que pode, porém, ser facilmente mimetizada pela simples fraqueza narrativa do autor. Não sei de qual dos dois casos se tratou aqui; no entanto, gosto de pensar que Murakami poderia facilmente ter aclarado vários pontos e que, se não o fez, foi porque acreditou que esta era a forma como a obra resultaria melhor, talvez mesmo pela sua própria natureza. Pessoalmente, esta ausência de informação não me incomoda (embora também não esteja certa de que fosse necessária), e penso que, naquilo a que se propõe, o livro resulta bem tal como foi escrito.

Além de um bom estudo da psicologia do desenvolvimento humano, este é um retrato lúcido da tragédia do homem mortal, sempre no traço calmo e no estilo directo e pouco adornado que, tanto quanto me é permitido dizer até agora, caracterizam o autor. A sua melancolia fatalista pode afastar alguns, mas há algo de poético em tudo isto que conseguiu colocar um aperto forte no meu coração do início ao fim. Não posso dizer que me tenha convertido a um culto de fãs, mas este breve mergulho nas profundezas da alma aumentou razoavelmente a minha consideração por Murakami. Recomendo.

  • Classificação: 8/10 (Muito Bom)
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