À minha frente, um olhar pousa sobre mim. Simultaneamente acusador e ameaçador, não se levanta por um segundo. Não vacila, não descansa. Parece não ser capaz de qualquer compaixão; parece não me querer dar hipótese. Não sei se é medo ou pena que me faz sentir; talvez um misto dos dois. Tamanha crueldade só pode advir de uma dor profunda, e dou por mim a questionar-me sobre o que terá acontecido àquele ser que agora me olha como ao último adversário numa longa guerra. Por que terá passado? Quantos golpes terá sofrido, e infligidos por quem? Ter-se-á apercebido, nesses momentos, que cada um desses cortes marcava com uma precisão de relógio os batimentos finais da sua alma?

O olhar continua a fitar-me, e agora tenho a certeza de que é pena que sinto. Sou subitamente tomada por um desejo insuportável de chorar, mas apercebo-me de que não tenho energia em mim para o fazer. Que estranho, penso. Impotente como afinal estou, limito-me a olhar de volta, eu própria já hipnotizada pelas profundezas daqueles dois poços negros que parecem reclamar o direito a mim. Pela primeira vez, noto a paciência com que me fixam: não é doce e compreensiva, porém, mas implacável. Sou invadida pela certeza de que não me vão deixar escapar. Apesar disso, não há qualquer gesto na minha direcção, agressivo ou não; apenas aquele olhar constante e final. A figura parece querer vencer-me pelo cansaço. Há quanto tempo estarei aqui?, dou por mim a pensar. Percebo que não faço ideia. O tempo é apenas uma noção abstracta que nada me diz. Talvez tenha estado sempre aqui.

Respiro fundo, num movimento tão ténue que se diria quase imperceptível. Eu, no entanto, sinto-o ao pormenor, e sei o que significa. Este suspiro leve, pois não tenho já forças para mais, é a minha resignação; a minha derrota. Estou rendida. A figura também o sabe, mas a sua expressão não se altera. Espera, apenas.

Desvio o olhar do espelho. Lentamente, de forma compassada e mecânica, nessa marcha eterna e ciclíca que é a vida enquanto dura, apago a luz e vou para o quarto. Mais um dia acaba. No espelho, congelada na escuridão da noite da alma, aquela figura perdida mantém-se fixa, na mesma posição. Pergunta-se, talvez, se haverá amanhã. E espera por mim.

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