A minha mãe costumava dizer que não há nada tão feio como uma pessoa que não aceita a felicidade, que não se deixa ser feliz. Era assim que via as coisas, a minha mãe: não como brancas ou pretas, boas ou más, mas como bonitas ou feias. Era uma daquelas pessoas para quem o mundo e a vida constituem uma grande preocupação estética, para quem a moral e a beleza são uma só, no fundo, sem por isso se poderem considerar necessariamente fúteis.

Creio hoje que, apesar da sua experiência de vida superior e das boas intenções dos seus conselhos, a minha mãe não percebia muito do assunto. Digo-o porque falava da felicidade como se viesse numa caixa devidamente assinalada e protegida, à prova de más interpretações e azares; uma coisa que surge e, tão obviamente como o sol, está ali, veio para ficar, e que cabe a cada um aceitar ou não, abrir ou não, de acordo com princípios quase – não há outra forma de o dizer – morais. Ora, do pouco que me foi permitido ver até agora, a felicidade é tudo menos isso. Pode estar nos sítios mais imprevisíveis, disfarçada de percalços e decisões erradas; vestida até, ela própria, de “coisa feia”. É muito fácil não ver a felicidade, e talvez ainda mais fácil rejeitá-la sem o saber, ou julgar tê-la encontrado apenas para descobrir, afinal, que se tratava de outra coisa – vai daí, talvez a felicidade simplesmente não seja, por definição, duradoura. Mas todas as definições são perigosas. Bom, a verdade é que, embora admita poder declarar-me culpada de passar, porventura, demasiado tempo da minha vida pessoal (mas que vida não é pessoal, afinal?) a rotular caixas indevidamente, ou mesmo a devolvê-las, não consigo, ainda hoje, ver essa atitude como a minha mãe: ignoro se é feia ou bonita; sei-a, apenas, inevitável.

Pergunto-me se a minha mãe alguma vez terá encontrado a felicidade. Talvez não. E talvez por isso mesmo julgasse tão ultrajante a ideia de não lhe abrir a porta.

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“Segue-me de volta para o sol”, pediu ela. Mas ele já não a via e já não sabia o caminho. Já não partilhavam um sol.

Às vezes, o tempo estraga as caixas.

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