Título Original: Jerusalém
Título em Portugal: Jerusalém
Autor(a): Gonçalo M. Tavares
Ano de Publicação: 2005
Edição: Caminho, 2010
Colecção: O Campo da Palavra
N.º de Páginas: 256
Encadernação: Capa Mole
Preço: €14,90 (Fnac)

  Classificação: 6/10 (Satisfatório)  

O leque de cenários que nos é apresentado é vasto, abarcando a loucura e a debilidade, a deficiência e o trauma, o orgulho e a vergonha. Creio que a característica comum a todos eles será, talvez, a fragilidade profunda do ser: atingida por vias diferentes em cada caso, certamente, mas irremediavelmente presente em todos. Todas estas são pessoas vulneráveis, expostas à miséria da vida, caídas em desgraça de alguma forma, e é possível e lícito sentir pena de qualquer uma delas. Jerusalém é sobre anjos caídos, almas penadas, dor inevitavelmente infligida entre supostos irmãos, como uma bola de neve, como um dominó de seres humanos.

Jerusalém, de Gonçalo M. Tavares, foi um dos presentes de Natal que recebi do meu pai, e lê-lo constituiu, definitivamente, uma experiência estranha: durante todo o meu contacto com ele tive de fazer um esforço por me lembrar e relembrar, uma e outra vez, de que estava a ler uma obra lusófona, escrita originalmente tal como a via, na língua portuguesa que conheço e manipulo desde que nasci; não foi fácil nem natural encarar estas como as palavras de alguém que vive no mesmo país que eu, que observa o mundo e as pessoas quase da mesma posição geográfica. Não me refiro apenas aos nomes das personagens e dos sítios, esses objectivamente exóticos e “estrangeiros”, como diria um bom português; não, tudo nesta pequena história, desde o ambiente à mensagem, sussurra filosofia fria, pensamentos incómodos; grita Kafka e Kundera, estranheza e peso. Não há nele qualquer vestígio da paixão irracional ou da leveza solarenga latinas que poderíamos esperar de um autor de origem angolana e com residência portuguesa; pelo contrário, encontramos em M. Tavares uma arquitectura literária tradicionalmente associada aos grandes autores do Leste europeu: cerebral, significativa, pensada. Jerusalém é um trabalho de reflexão, um conjunto de pequenas exposições que pretendem dizer algo – e que o fazem, de facto.

A premissa é de um género que, à partida e por definição, me agrada: um conjunto de personagens muito peculiares (como têm potencial para o ser, talvez, todas as pessoas) cujas vidas ironicamente se cruzam em pequenos contactos, e cujas interacções vêm revelar aspectos quer gerais quer particulares da natureza e condição humanas: aspectos esses que são atirados à nossa própria experiência e consciência para que deles tiremos ilações sobre a humanidade e, com sorte, sobre nós próprios. O leque de cenários que nos é apresentado é vasto, abarcando a loucura e a debilidade, a deficiência e o trauma, o orgulho e a vergonha. Creio que a característica comum a todos eles será, talvez, a fragilidade profunda do ser: atingida por vias diferentes em cada caso, certamente, mas irremediavelmente presente em todos. Todas estas são pessoas vulneráveis, expostas à miséria da vida, caídas em desgraça de alguma forma, e é possível e lícito sentir pena de qualquer uma delas. Jerusalém é sobre anjos caídos, almas penadas, dor inevitavelmente infligida entre supostos irmãos, como uma bola de neve, como um dominó de seres humanos. Não há qualquer conclusão na obra senão a que assume como mundano e omnipresente o conceito de “terror” humano a cuja investigação se prende a vida de Theodor Busbeck, um dos protagonistas da história: terror que, neste texto, se manifesta através de variados tipos e níveis de crueldade, desde a troça e a traição conjugal ao trato dos pacientes psiquiátricos (uma temática muito específica que Gonçalo M. Tavares aqui explora, aliás, com bastante excelência, deixando muito espaço para a reflexão acerca dos problemas éticos e morais levantados pela forma como a loucura é gerida na sociedade e pelos profissionais de saúde) e ao próprio homicídio de um inferior. Este pode ser um mundo frio, de dor e medo, morte e – pior do que isso – vidas desperdiçadas, e esta é uma obra que nos confronta com essa realidade, relembrando-nos até onde poderíamos – podemos – descer.

A nível técnico, Jerusalém é um romance curto e dividido em muitas pequenas partes, tornando-se, por isso, passível de uma leitura rápida: embora nunca, penso poder dizê-lo, fácil, dado o peso da temática e a hostilidade do ambiente. Ainda assim, para os mais corajosos e dispostos a mergulhar no lado lunar da vida e do Homem, vale muito o desafio, já que, ao se assumir como uma obra de reflexão e conceito (e uma surpreendente fonte de verdadeiras citações filosóficas), prova que existe variedade na boa literatura lusófona contemporânea – não tivesse, afinal, esta obra rendido ao autor o Prémio Literário José Saramago de 2005.

  • Classificação: 6/10 (Satisfatório)
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