Há coisas que são só para nós, que não devemos dizer. Algumas não devemos dizer a ninguém, a nenhum outro ser humano: nem sequer àqueles que mais amamos. Julgamos por vezes que a partilha nos aproximaria, mas não, é ao contrário: amamos porque não partilhamos. Amamos porque não conhecemos os abismos uns dos outros, sejam eles quais forem. Há quem argumente que amar é, precisamente, amar esses abismos. Talvez. Ou talvez essas pessoas não saibam o que é realmente um abismo.

Um verdadeiro: não daqueles que saltam logo à mente perante a palavra, como ver uma pessoa num pico de loucura, ou então o oposto, vê-la sete palmos abaixo de terra, nos pântanos da depressão. Não; isso não são abismos. As respostas certas nunca são as mais óbvias – não no que diz respeito à nossa natureza, de qualquer forma. Isso, os picos e os pântanos, são os nossos extremos, a nossa quebra com a trela constante que o cérebro consciente e racional insiste em colocar-nos todos os dias quando acordamos, como quem vai passear um cão perigoso, ou tem medo que ele fuja (é capaz de ter os seus motivos para desconfiar, o cérebro). Podemos mostrar esses lados a outros seres humanos. Devemos mostrá-los, até, e talvez isso nos aproxime a todos, de facto. Não, um abismo é algo muito mais negro. Chamo-lhe “abismo” porque a palavra me traz a imagem de algo sem fim, não por querer falar de uma coisa funda. Para ser funda, uma coisa tem de ter profundidade. Estes abismos a que me refiro não têm profundidade. Não têm dimensão nenhuma, na verdade; não há grandeza que os descreva: até porque, como em quase tudo o que tem piada na vida, variam de pessoa para pessoa. O que varia não é o abismo que se tem, mas sim o que o outro poderia considerar um abismo. O abismo é o tabu, o limite, aquilo que não podemos partilhar. Qualquer um de nós sabe que com diferentes pessoas se partilham diferentes coisas: todos temos aquele amigo mais conservador, ou mais homofóbico, ou mais de direita ou mais de esquerda, ou que é adepto ferrenho daquele clube intragável do nosso desporto preferido. Todos escolhemos o que dizemos e a quem, e, com alguma inteligência, fazemo-lo com estratégia. Esta estratégia não é nada de que nos devamos embaraçar; não nos torna falsos, já que, se assim o quisermos, tudo o que mostramos a cada pessoa continua a ser verdade. Só nos torna, digamos, contidos. Ponderados. Sábios, talvez. Bom, o abismo é isto mesmo: o que sabemos não poder mostrar a uma dada pessoa. Depende dela, não de nós. Nós vamos tê-lo na mesma, vamos ter muitos, não há como fugir a isso: mas é o julgamento do outro que define o que em nós é um abismo ou não. O abismo é um conceito social, não pessoal. E o abismo existe porque a triste verdade é que ninguém nos vai amar por tudo o que somos, e, muito provavelmente, também há coisas por que ninguém nos pode amar. Talvez possam continuar a amar-nos apesar delas; não sei. Mas não podem amar-nos por elas, não seria humano; e como ainda somos todos humanos, e não cães (pelo menos, creio que ainda não existe um único que consiga ler), noção romântica nenhuma nos pode salvar disto. Bom, talvez a noção romântica de Heathcliff. Mas divago. O que quero realmente partilhar é que me confunde muito, este conceito de abismos: não por si só, claro, mas porque acarreta consigo outros que me aterram, como o de a ignorância ser uma benção, e o amor necessariamente cego. Quero ser amada por tudo o que sou, porra! Já viste o que aturo de ti? Então agora também levas comigo!, é o que me apetece gritar. Isto sou eu! Isto sou eu e não me envergonho! Dá graças pelo que está bem e ajuda-me a reparar o que está mal, mas ama-me por tudo, por tudo, porque eu sou isto tudo, é o que quero implorar. Em noites como esta, apetece-me gritar-me aos sete ventos, assim. Atirar-me ao mundo, tal como sou, exigir a todos a minha aceitação, a uns mais do que a outros. Sou boa, tão boa, tão melhor do que tudo o que já conheceste; agradece à vida por me teres nela, e vê as minhas feridas, e sara-as, e esquece-as logo a seguir. Vê-me nua e põe-me nesse pedestal, e volta a ver-me nua, uma e outra vez, e deixa-me ficar nele, sempre. Sê mais do que humano comigo.

São estas as palavras. É isto que te diria, Mundo.

Mas depois lembro-me do meu maior medo: a solidão. E lembro-me do abismo. E calo-me.

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