“Nada desaparece assim, de um momento para o outro”, dizia-lhe ele num tom impaciente, provavelmente já irritado com a dúvida constante, como o costumam ficar muito facilmente os homens. “Os sentimentos não desaparecem assim”. Queria ele dizer, não precisas de estar sempre a espreitar para ver se estão lá, isto não é um jogo de apanhada, eles não vão fugir quando estiveres distraída, ou, pior ainda, a tapar os próprios olhos; eles, os sentimentos, ficam, porque é essa a definição deles, é esse todo o sentido deles. A constância.

Para ela, a verdade absoluta, essa verdade absoluta sempre tão relativa, e por isso tão risível, não era a mesma. A ela preocupava-a isso, o jogo, a correria, o avançar implacável da vida, como um rio que leva o bom e o mau, indiscriminadamente, numa torrente animal, numa violência impensada que cobra tudo aos que pensam. Tinha principalmente medo da apanhada, de fechar os olhos, de largar a mão, terminar o livro, apagar a luz, trancar a porta. Tinha medo da apanhada porque tinha medo de não apanhar. Tinha medo do rio, do fatalismo desgovernado do rio, e, no entanto, tinha também medo da liberdade. Da liberdade dos outros, porque não concebia que qualquer ser humano pudesse escolhê-la de entre tudo o resto, muito menos com longevidade, essa longevidade que ele tomava como dado adquirido – meu deus, como o invejava. E tinha medo da sua própria liberdade, porque gostava de gostar, amava amar; talvez amasse mais o amor do que o objecto do seu amor, não sabia, mas amava, isso amava; o que quer que fosse, amava muito, e não queria deixar de amar. Era como um escravo que já não sabia viver sem as correntes, as talas; eventualmente, até, sem a dor do chicote. Prendam-me, digam-me que é esta a vida que terei sempre, não me deixem escapar; e certezas, dêem-me certezas, sejam elas quais forem. Não ter de jogar. O conforto ilimitado da limitação.

Que preço alto pagamos para ser diferentes dos animais, céus, que brutalidade, pensava, e admirava os gatos, os gatos da sua infância e de sempre, de cauda no ar perante o simples prospecto de um petisco, sempre o mesmo petisco e sempre a mesma cauda no ar, com o mesmo entusiasmo, dia após dia; invejava-lhes isso, essa resignação, essa servidão, essa alegria patética, e, acima de tudo, invejava-lhes a constância, e a falta de noção que tinham dela – afinal, como tantas outras coisas, talvez também a constância só possa existir se incógnita, se inconsciente, se a tirarmos do cérebro para a pormos no corpo, no riso, na pele.

Era cobarde e sabia-o. Não lançava barcos ao mar porque não tinha a certeza do seu regresso, não conseguia, perdera a fé – e por isso, por essa cobardia, por essa incerteza, deixava-os apodrecer na costa, abafados, asfixiados; inúteis. Mas não era por pura loucura que o fazia; protegia-os apenas com o mesmo zelo com que uma mãe protege os filhos da vida, porque a conhece, e por isso a teme. Sim, odiava e temia o jogo porque o conhecia; porque, em tempos, fora já campeã dele. Sabia de cor as estradas da frieza, da crueldade, da leviandade; do seu principal inimigo, a inconstância. Sabia como era fácil para qualquer pessoa perder-se nelas, não ver as placas ou não querer ver, ficar para sempre preso na floresta e não conseguir tocar mais do que a rama. Já não queria isso para si. A pele começava a estalar, as escaras a doer; a tarde chegara ao fim, queria uma casa, não um recreio. Queria acreditar, acreditar que a mão continuaria lá depois de a largar, que era seguro fechar os olhos, que podia apagar a luz e dormir em paz, porque ela acenderia de novo. Talvez conseguisse, se parasse de pensar. Talvez a constância a encontrasse, se ela a expulsasse da cabeça. Talvez.

“Nada desaparece assim”, dizia-lhe ele, impacientemente paciente. Constante.

Espero que não, pensava ela. Espero que não.

E apagava a luz.

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