Título Original: Ham on Rye
Título em Portugal: Ham on Rye: Pão com Fiambre
Autor(a): Charles Bukowski
Ano de Publicação: 1982
Edição: Ulisseia, 2010
N.º de Páginas: 360
Encadernação: Capa Mole
Preço: €19,50 (Fnac)

  Classificação: 8/10 (Muito Bom)  

Henry Chinaski é um pobretanas amoral inútil para a sociedade. É machista, tem vícios. Se o encontrássemos na rua, provavelmente mudávamos de passeio. Mesmo enquanto cresce, assusta-nos. Não conseguimos gostar dele; e, no entanto, também não conseguimos deixar de o seguir, de o compreender, de o perdoar, de admirar a sua franqueza, de querer saber mais da tragédia – cómica, porque narrada de forma tão directa e tão objectiva – da sua existência. Também Bukowski não é para todos.

Charles Bukowski é um autor muito… peculiar. Nascido na Alemanha mas criado em condições pouco simpáticas em Los Angeles, a sua bibliografia como romancista consiste em seis obras escritas entre 1971 e 1994, todas elas, à excepção da última, narradas na primeira pessoa por Henry Chinaski, uma espécie de alter-ego do autor, sendo quase todo o seu material, portanto, muito auto-biográfico. Cada um destes romances retrata uma diferente fase da vida de Henry (e, consequentemente, de Bukowski), não se verificando, no entanto, uma sequência de publicação semelhante à cronológica: Ham on Rye, por exemplo, aqui em destaque, é já o quarto trabalho neste conjunto, mas é nele que encontramos a infância e adolescência de Henry, enquanto Post Office (Correios, na tradução portuguesa), a primeira de todas as obras, é referente à sua vida adulta enquanto trabalhador dos correios.

Curiosamente, não foi a prosa que me levou a Bukowski, mas sim a sua poesia: bela, crua, solta e sem regras, exactamente como eu mais gosto dela. No entanto, a cada poema foi crescendo em mim um interesse em conhecer mais deste autor tão citado e, ainda assim, tão desconhecido: e foi assim que, já há vários meses, acabei por levar para casa Ham on Rye: Pão com Fiambre. Desde aí, tive também a oportunidade de ler Post Office, na versão inglesa original; no entanto, dada a continuidade temática e estilística encontrada em todas as obras de Bukowski, não creio que se justifique fazer-lhes críticas aprofundadas individuais. Assim, serve também este artigo para comentar a obra de Charles Bukowski – enquanto na pele de Henry Chinaski – no seu todo.

Bukowski é largamente visto como o campeão literário da “vida reles” (a revista Time chamou-lhe, em 1986, “a laureate of American lowlife”), e não é para menos: da infância à idade adulta, o narrador faz jus à reputação do autor, através de descrições tão trágicas quanto cómicas de uma vida levada na pobreza económica e moral dos subúrbios da Los Angeles do séc. XX. Henry é praticamente um selvagem, numa selva sem vegetação e felinos mas igualmente animal, em cuja inexistência quase total de valores e estímulos se formam personalidades que vivem apenas para o dia seguinte. Este é um retrato da “escumalha” da sociedade, daqueles que só se esforçam o mínimo para sobreviver, e para quem as únicas necessidades são o álcool e o sexo. No entanto, na sua total franqueza e simplicidade, é também um raríssimo e maravilhoso estudo do ser humano na sua apresentação mais primordial, sem a vergonha ou contenção em que a maioria dos autores acaba por cair, ou pelas quais envereda propositadamente: Bukowski parece colocar no papel tudo o que lhe vem à cabeça, sem preocupações com a consistência da narrativa, as regras do diálogo ou a censura moral: quer de palavras concretas, quer de eventos, alguns tão ilegais quanto imorais.

É pelo acima constatado que, com Bukowski, nunca se fica com a sensação de se ter lido uma história completa no sentido clássico do termo: se nos preocuparmos com o rigor do argumento em si, cedo perceberemos que muitas questões ficam por responder, e que variadíssimos acontecimentos de vida de (supostamente) elevada importância são altamente negligenciados pelo narrador, apesar de referentes a si próprio. No entanto, temos de nos lembrar de que todas essas preocupações são convenções, quer sociais, quer morais, e Bukowski não consegue – nem quer – ser convencional. Bukowski escreve o que lhe apetece. Em Post Office, esta opção narrativa, que quase torna o romance numa sequência de pequenos relatos do dia-a-dia (cuja selecção parece prender-se com critérios misteriosos), é particularmente proeminente; Ham on Rye tem já um fio condutor mais forte, sendo uma obra significativamente mais longa e com muito mais conteúdo, além de se recobrir de alguma inocência, facto provavelmente justificado por se tratar da narração de uma infância na primeira pessoa. No entanto, a ausência total de censura mantém-se, como estandarte do autor que é, e encontramos igualmente descrições controversas que não são compatíveis com a sensibilidade de qualquer um, como a de um adolescente a masturbar um cão, a de dois idosos a fazer sexo, e, ainda, variadas instâncias de violência de todos os tipos: desde física a psicológica; quer doméstica, quer entre pares.

Henry Chinaski é um pobretanas amoral inútil para a sociedade. É machista, tem vícios. Se o encontrássemos na rua, provavelmente mudávamos de passeio. Mesmo enquanto cresce, assusta-nos. Não conseguimos gostar dele; e, no entanto, também não conseguimos deixar de o seguir, de o compreender, de o perdoar, de admirar a sua franqueza, de querer saber mais da tragédia – cómica, porque narrada de forma tão directa e tão objectiva – da sua existência. Também Bukowski não é para todos. Não escreve particularmente bem, não tem o glamour de um clássico, não segue regras, não sabe nem quer conter-se, mostra-nos o que queremos ver e o que não queremos com igual destaque; porém, apesar de tudo isso, ou talvez por tudo isso, é um marco inabalável da literatura americana, da vida americana: da vida em qualquer sítio. Mais ninguém retratou este mundo desta forma. E é essa singularidade, essa sinceridade desmedida, que o torna num autor que consigo recomendar quase universalmente. É possível – e provável – que muitos não gostem; que se sintam desconfortáveis, assustados: mas talvez esse seja um choque de que todos precisamos.

  • Classificação: 8/10 (Muito Bom)
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