Título Original: Madame Bovary
Título em Portugal: Madame Bovary
Autor(a): Gustave Flaubert
Ano de Publicação: 1857
Edição: Penguin Books
Colecção: Penguin Popular Classics
N.º de Páginas: 362
Encadernação: Capa Mole
Preço: €3,50 (Fnac)

  Classificação: 9/10 (Excelente)  

[…] vejo em Madame Bovary um retrato riquíssimo, e incrivelmente actual, do que é a vida e do que são as pessoas. Vejo uma descrição fantástica do sofrimento que existir pode ser, quando não se sabe ou não se consegue fazê-lo bem. Vejo um conjunto encantador e viciante das personagens-tipo que ainda hoje constituem a nossa sociedade, todas elas perfeitamente caricaturadas. E vejo, apesar de ter lido uma tradução inglesa e não o original francês, uma prosa fluida e tecnicamente muito feliz, que faz jus à reputação de Flaubert como perfeccionista incurável.

Tenho de começar esta crítica confessando que já há muito que um livro não me prendia desta forma. Todas as minhas últimas incursões literárias têm sido obras de estrutura pouco linear e temática algo cerebral – penso que o meu último romance de esqueleto tradicional foi Sensibilidade e Bom Senso, de Jane Austen, que li já há vários meses –, e, talvez também por causa disso, bebi da prosa de Madame Bovary, tão deliciosa e marcadamente queirosiana, como um viajante moribundo de uma fonte fresca no deserto. A história desta relação é engraçada: perto do final de Agosto deste ano, coloquei alguns clássicos literários no iPhone, mais por curiosidade do que com a intenção séria de ler qualquer um deles em suporte digital – algo que não resulta comigo, como amante eterna do papel e do livro físico que sou. No entanto, ao contrário do que seria de esperar, a obra-prima de Flaubert, após apenas meia dúzia de frases, absorveu-me tanto que acabei por ler uma quantidade inesperada de capítulos nessas condições, até ter a oportunidade de comprar um exemplar impresso. Desde aí, dei por mim a levá-lo para todo o lado, a lê-lo em todas as pequenas pausas que me surgiam sob a forma de viagens em transportes públicos, a querer falar dele a toda a gente. Já não me lembro da última vez que fiquei tão ansiosa por saber o que ia acontecer a um grupo de personagens a seguir, e essa sensação – a de querer sempre mais de um livro –, para mim, é de um valor inestimável. Assim, sob esse ponto de vista, esta foi uma experiência que posso equiparar às que tenho com as obras de Somerset Maugham: e este, como muitos sabem, é um dos maiores elogios literários que posso fazer.

Para quem não sabe, Gustave Flaubert é um dos pioneiros – e um mestre – do movimento literário do Realismo: o mesmo em que, mais tarde, o nosso maravilhoso Eça viria, também, a incluir-se. Com as suas descrições pormenorizadas do mundo e das vidas tal como eles são, e sempre acompanhada de uma boa dose de sátira social, esta é uma das minhas vertentes preferidas da literatura, e, provavelmente, a que leio com mais prazer. Madame Bovary, mais do que um bom exemplo deste movimento, é o seu protótipo perfeito; na verdade, as suas páginas são um tal paraíso para análise estilística e temática que tenho pena de não o ter podido estudar a nível académico, com a professora fantástica de Língua Portuguesa que tive a sorte de ter entre o 7.º e o 12.º ano e que tanta riqueza acrescentou à minha experiência de variadíssimas obras. Não tendo tido essa oportunidade, resta-me deixar aqui o meu testemunho sobre esta história de amor e traição, sofrimento e voracidade, tão controversa na altura do seu lançamento que o seu autor foi perseguido a nível legal.

Madame Bovary, como o nome indica, é a história de Emma, uma bela jovem do interior de França que, aborrecida e querendo lançar-se à vida, aceita casar com Charles Bovary, um simples e pouco ambicioso médico regional. No entanto, esta união não a liberta da vida monótona no meio rural a que tanto quisera escapar, e Emma, que crescera a ler romances ardentes e se ensinara a si própria a sonhar demasiado alto, encontra em cada dia da sua vida, como resultado do choque entre as suas fantasias e a realidade, uma insatisfação crescente e demolidora. Este tédio (l’ennui) aparentemente eterno, vivido no seio de uma existência inútil e sempre igual, cada vez mais longe dos ideais de paixão e aventura que imaginara para si, planta em Emma a semente de um ódio inabalável – embora nunca perante ele assumido ou expresso – pelo marido, que, na sua placidez e falta de noção do turbilhão que se passa no interior da mulher que tanto ama, representa tudo o que a torna infeliz. Assim, agindo de forma tipicamente feminina, Emma vai acumulando dentro de si todo o seu sofrimento e frustração, até ao dia em que estes explodem e a sua integridade cede: quer sob a forma de adultério, quer através de gastos monetários bem para lá das capacidades do casal. Estas duas vias de compensação interna de Madame Bovary formam a base da história do romance, e é na forma como, no final, ao contrário do esperado por ela, nenhuma delas consegue, também, corresponder aos seus ideais sonhados ou fazê-la feliz, servindo ambas, na verdade, apenas para a destruir, que reside a principal e mais importante mensagem da obra: a insatisfação constante inerente à condição humana, e o perigo em que se incorre quando não se consegue controlá-la.

Nos dias de hoje, penso que Emma teria sido diagnosticada com distúrbio bipolar: os seus comportamentos e emoções correspondem aos tipicamente encontrados nessa condição, e a sua incapacidade em ultrapassá-los é coerente com a ideia de se tratar, pelo menos em parte, de uma doença. No entanto, numa era em que o distúrbio mental ainda não tinha emergido como uma entidade bem definida e tratável, Emma surge apenas como o protótipo da mulher bonita sem moral: como uma má pessoa, até. E, na verdade, o que encontramos nela é uma alma egoísta e egocêntrica, incapaz de dar valor ao que tem – o que, objectivamente falando, não é pouco: beleza, saúde, um marido que a idolatra, condições decentes de vida, e até uma filha que, numa nota ainda mais chocante, lhe parece ser indiferente, ao ponto de raramente ser mencionada ao longo da história, e de ela, inclusive, se esquecer de a considerar ao equacionar fugir com o seu amante. Na sua ambição inesgotável pelo ideal romantizado, Emma trai o marido, arruina a sua família, retira-se do papel de mãe e abdica da sua dignidade a todos os níveis. A sua vida é de uma oscilação assustadora, de uma instabilidade mental doentia. E, no final, para quê? Não encontra nunca a paixão inabalável que julgara necessária para ser feliz; na verdade, a felicidade é algo que lhe escapa uma e outra vez por entre os dedos, no meio da avalanche de destruição que vai causando – quer dentro, quer fora de si – e na qual se vai perdendo cada vez mais.

Mas eu não consigo odiar Madame Bovary. Antes pelo contrário, sinto uma profunda pena dela – e, mais do que isso, tenho muito, muito medo dela. Medo dela, sim, porque posso ser ela. Qualquer pessoa que esteja a ler isto corre o risco de ser ela – qualquer ser humano neste mundo. Porque é tão fácil. Basta, como ela, querer sempre mais e mais, e nunca conseguir compreender – compreender mesmo, internamente, no coração dos corações, na alma da alma – que a felicidade não é um estandarte para o qual caminhamos, não é uma Atlântida de ouro a que vamos chegar quando conseguirmos cumprir os objectivos grandiosos que traçámos para a nossa vida, não é o final eterno de nada. A felicidade é poder dormir quando estamos cansados, é comer o nosso prato preferido, é ouvir uma música que nos diz tudo, é uma lareira ao fim do dia, é rir com pessoas a quem podemos chamar família, é um abraço no momento certo, é o sorriso de alguém que ajudámos. A vida não é o que nos disseram, ou o que nós dissemos a nós próprios. A vida é curta, repetitiva, traiçoeira, e, no final de contas, bastante inútil. Eu sei, todos já ouvimos esta lenga-lenga; provavelmente, todos já concordámos com ela, ou, pelo menos, todos já a racionalizámos algures na nossa existência. Mas isso não basta. É preciso tirá-la do conceito filosófico e integrá-la no nosso temperamento, no nosso esqueleto mais interno. É preciso perceber a diferença entre resignação cobarde a uma vida que está no nosso poder melhorar e a noção sensata de que há coisas que não vamos ter – ou que não são como nós gostaríamos, nem nunca vão ser. É preciso saber viver com o que há, com o que está. Qualquer pessoa que não o consiga fazer correrá sempre o risco, dia após dia, de não ver a felicidade, e, por causa disso, deixá-la escapar; de passar ao lado da vida – do que ela verdadeiramente é; de encontrar em cada nova ventura apenas mais uma desilusão, até ao desencantamento total e final. E isso, sim, é uma existência arruinada. Isso – não a monotonia, não a incapacidade de atingir os nossos supostos ideiais – isso, a incapacidade de retirar valor, prazer, e, é mesmo essa a palavra, felicidade de tudo o que temos de bom ao nosso alcance, é uma vida desperdiçada. Isso é ser Emma Bovary. E é um conceito incrivelmente assustador.

Em conclusão – porque, como é óbvio, não sou capaz de exprimir tudo o que este livro me disse em poucas palavras, e esta supostamente pequena dissertação já vai bastante longa –, vejo em Madame Bovary um retrato riquíssimo, e incrivelmente actual, do que é a vida e do que são as pessoas. Vejo uma descrição fantástica do sofrimento que existir pode ser, quando não se sabe ou não se consegue fazê-lo bem. Vejo um conjunto encantador e viciante das personagens-tipo que ainda hoje constituem a nossa sociedade, todas elas perfeitamente caricaturadas. E vejo, apesar de ter lido uma tradução inglesa e não o original francês, uma prosa fluida e tecnicamente muito feliz, que faz jus à reputação de Flaubert como perfeccionista incurável (afinal, esta foi uma obra que, apesar de não muito longa, levou cinco anos a completar). Faço ainda uma vénia extra ao autor pela compreensão tão inesperada da natureza feminina em particular, algo não muito fácil de encontrar em escritores do sexo masculino. E, com uma recomendação final a absolutamente todas as pessoas no sentido de o incluírem nas suas vidas, agradeço a Madame Bovary tudo o que me deu enquanto o li, e todas as citações e ideias que ficarão sempre comigo.

  • Classificação: 9/10 (Excelente)
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