Vamos fugir? Vamos?
Mas não, não vamos;
Não venhas, vejo-o agora:
Fujo sozinha.
Pensava-te aqui no alto, comigo,
Julguei-te pássaro, como eu,
Mas és afinal filho e sangue e raça
Desta carne à minha volta,
Da vulgar humanidade,
Vazia e abençoada humanidade,
A mesma que odeio, que me sufoca
(Olha! Vê como me persegue!),
A dos eternos risos cristalinos,
Quais rios despreocupados
Correndo sempre, sempre,
Sobre tudo e sobre nada,
Que em toda a minha vida
Pude sobrevoar apenas,
Nunca entender.

Um dia emprestei-te o meu ninho,
Levei-te nas minhas asas
(Lembras-te?),
Mas não é tua a minha árvore,
Não é teu o meu céu.
Fiz-te sobre-humano
Num momento de loucura,
E agora, de novo,
Humano te vendo enfim,
Vejo pairar, desamparada,
Sobre as cinzas do que ficou,
A minha alma, a minha única alma,
Que desde sempre soube
Não ser deste mundo
(E quem há que a conheça e não o saiba?).
Ali está ela, e paira,
Desamparada, só.
Triste ou não, já não interessa.

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