O corpo dela jazia sobre a cama, deitado, desamparado, ali, não sozinho, só. Era pouca a luz que entrava já pelos pequenos pontos espalhados pela persiana, em raios finos e exactos, raios que lhe caíam sobre a pele, como alvos, como miras. Luz da manhã, luz da vida. Ela não a via. Com as pálpebras unidas, orladas pelas longas pestanas de mulher, protegia-se do mundo, escondida ainda nesse outro que existe apenas dentro de nós e que é, afinal, se calhar, a única coisa que é só nossa, mesmo só nossa, que mais ninguém pode ver, tocar, estragar. Na sua nudez, total e sem limite, o pudor era um conceito distante, tão distante. Era como se tivesse nascido para estar nua, como se qualquer outro estado no seu ser fosse um sacrilégio, a corrupção de algo sagrado, muito sagrado. Não era deste mundo, e sabia-o; sabia-o mesmo no universo distante em que dormia, agora.

Também ele o sabia. Deitado ali, ao lado dela, a mil quilómetros dela, sentindo a sua respiração leve a cada pulso, sabia-o. Não te toco, nem sequer quando te toco, pensava, e os seus dedos percorriam a pele dourada, cada curva e cada ângulo, cada centímetro que nunca seria seu, por mais que o possuísse. Não sabia já se era resignação que sentia, ou medo. Aquela beleza, tão fulminante e tão doce, pesava-lhe no coração como uma perda, uma perda que ainda não o era, uma tragédia antecipada. Mas era ali que estava e ali que se mantinha, perante aquela serenidade ensurdecedora, preso a cada profundidade infinita que nunca conheceria. Estava ali, era dela, seria dela até ao fim. Podes ficar, mas não fales, dissera ela. Adormecera. Ele não. E ali ficara, em silêncio.

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