Subo uma rua
Que nunca mais acaba.
O Tempo, só o sei
Pelo latejar da vida
Contra a minha pele.
Está sol, e não é justo.
Dias assim só deviam
Ver chuva, dor.
Andar cansa,
Falta-me o gosto,
Páro.
À minha volta,
Carcaças,
Velhas, ressequidas carcaças,
Milhares,
Esqueletos de outros como eu,
Que também já foram jovens
E belos e ingénuos
E tentaram um dia
Subir esta rua
Sob o mesmo Sol.
Mas agora são carcaças.
Estou num cemitério,
O mundo é um cemitério,
Percebo finalmente.
Confundo-me com um dos esqueletos,
Não sei se os mortos têm frio,
Dou-lhe a minha pele.
Já não sei o Tempo.
Os muros são altos,
A perder de vista.
Contemplo-os novamente,
Sei que se riem de mim,
Não lhes toco.
Não posso subir-vos,
Dei a minha pele
A um esqueleto.
Mas os muros não ouvem,
São diferentes de nós.
Têm sorte, penso.
Sento-me e espero,
Como milhares
Devem ter feito
Antes de mim.
Lá em cima, o Sol brilha,
Cruel, cego,
Eterno e ausente.
Esqueceu-se de nós.

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