Não posso esquecer,
digo-me uma e outra vez,
não posso esquecer
o quão frágil
pareceste naquele dia,
naquela noite,
quando te segurei
contra o meu peito,
esperando por tudo
o que algum dia existiu
que o meu amor te atingisse
e fluísse dentro de ti
como sangue:
para o teu coração,
para o teu cérebro,
para cada centímetro da tua pele,
para tudo o que alguma vez foras.

Não esqueço
o calor do teu rosto
contra o meu
enquanto choravas
silenciosamente,
tão longe de mim
quanto podias;
o cheiro da tua pele,
casa da minha alma,
misturado com
o adocicado do perfume
e com as minhas próprias lágrimas,
lágrimas de dor e de pesar
e de medo e de amor,
tanto amor;
o teu velho casaco preto
cobrindo-te os ombros
e as costas e os braços:
meu deus, como estava consciente
dos teus braços à minha volta!;
todo o teu ser,
tão dolorosamente divino,
e, por fim, tão humano,
tão tristemente humano à minha frente:
(semelhantes, eu e tu, finalmente);
e todas as tuas malas
espalhadas pelo chão,
e o grito na cabeça
que me mutilava a voz
enquanto o meu corpo
se prendia a ti:
“por favor, não vás;
por favor, não vás”.

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