Olho só mais uma vez:
Para recordar –
Para não me esquecer
Do que há para esquecer –
Nem sei.

Olho, só mais uma vez – juro!,
E são tantas as memórias
Nas paredes e nos lençóis,
E nos passos que aqui traçámos,
A rir, a chorar, a amar,
Alegres, cansados, tristes,
Mas vivos, sempre tão vivos,
E recordo todas as palavras,
E todos os silêncios
Que as tornavam desnecessárias,
Apenas para nós.

Hoje, o cheiro da tua pele
Escorre por toda a casa.
Inunda-me, afoga-me,
Como um beiral
Num dia de chuva,
Como um dilúvio
Sem arca.

Não sei porque choro.
Não sei já o que sei de mim.
Esqueço-me de como falar comigo –
E os meus silêncios não falam,
Não falam como os nossos.

Mas é silêncio tudo o que tenho.
Silêncio, e esta imagem
Que me possui,
Que toma conta de mim,
Tão etérea mas tão vívida,
Tão dolorosamente sofrida
Por cada centímetro
Do que resta de mim,
De que é assim o amor:
Um dilúvio sem arca.

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