Construímos casas,
pusemos-lhes portas,
janelas,
colocámos vidro nas janelas,
trancámos as portas.
E quando fizemos cidades,
criámos muros
e limites e regras
e castigos para quem violasse
as regras e os limites e os muros.
Protegidos, enfim;
escondidos.
Uns dos outros,
claro,
sempre uns dos outros,
porque o medo
é sempre dos outros.

Mas aquele que tem
a chave da nossa porta;
aquele que sabe de cor
com que material
construímos o nosso muro;
aquele cujo coração
pode destruir-nos
sem piedade
a qualquer momento,
batendo sempre,
sempre!,
ameaçador,
como uma bomba-relógio
na nossa caixa torácica –
desse,
o único que morrerá connosco,
o que nos matará a ambos,
não nos lembrámos.
Estávamos demasiado ocupados
a fingir que o protegíamos.

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