São tantos os navios
que lancei ao mar
que lhes perdi a conta.

Não sei para onde foram.

Recordo ainda o toque
da madeira fresca
dos seus estandartes,
tão puros e tão nobres,
que reflectiam o meu rosto
(feitos à minha imagem?),
acabados de pintar
com todas as cores
da esperança e do que é belo,
e os raios de sol
que me ofuscavam o olhar
e me tatuavam a coragem na pele,
e as redes de pesca,
redes de tanta promessa,
como botões de rosa,
dissera-me ele naquele dia
numa inocência desmedida,
como botões de rosa.

Lembro-me do encanto de criança
com que esperei o seu regresso,
e lembro-me de já não ser criança
e de já não saber o que era o encanto
e, no entanto, esperá-lo ainda,
com algo novo em mim a que a vida
me ensinara a dar nome,
um nome sempre maiúsculo:
Amor.

Eram tantos os navios,
e não sei para onde foram.
O horizonte sugou-os, um a um,
como o Tempo engole os sonhos,
sem dó nem piedade,
sem olhar a nomes ou a palavras.

Já não são muitas as palavras
que me atrevo a invocar.
Aprendi com cada maré
neste porto infinito
que as palavras são perigosas,
que não há água nem sal que as apague,
que são sangue esculpido em pedra
que o Diabo encarna e transforma
em ideias e sentimentos vãos
que nos prendem de uma só vez
e não nos soltam mais;
não nos soltam mais.

Hoje, a minha praia está deserta.
Não há mais madeira, não há mais tinta.
Sento uma pele diferente na areia fria
e vejo o pôr-do-sol eterno da minha vida
a desenrolar-se perante mim.
É já sem esperança que espero,
mas não há outro lugar no Mundo para mim:
amarrei-me aqui com palavras;
amarrei-me a palavras.

Perguntam-me muitas vezes
se é alegre ou triste que me sinto.
É quando o fazem que sei
que nunca me conhecerão.
Não há felicidade ou infelicidade
em mim, no meu Amor
sempre maiúsculo.
Há apenas a Vida:
a Vida que é tudo,
e o tudo que é nada.

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