Desde aquela noite, lembrei-me tantas vezes das coisas que disseste. Não sei quanto tempo demorou até me aperceber de que a minha dor era a tua; só sei que, em momentos como este, tenho a certeza de que consegues ouvir o meu grito interior, em todo o seu silêncio ensurdecedor e no preciso instante em que o solto, como se houvesse em nós uma consciência comum – não, não uma consciência; uma alma, uma alma comum, um sofrimento comum. Amo tudo o que dói em ti, amo tudo o que dói em ti; e estas são palavras que repito vezes e vezes sem conta para a eterna almofada; para os lençóis lavados uma e outra vez por estas mesmas lágrimas; para as paredes, únicas expectadoras da minha raiva, da minha quebra – únicas testemunhas da minha essência. Elas, e tu. Amo tudo o que dói em ti – em ti, que mal conheço e quase nunca vi; a ti, que me destrói não odiar; a ti, a ti, porque tu és eu, e eu sei-o, e tu sabe-lo; o universo não nos poupou com a ignorância. Em noites como esta, não há uma linha entre o teu final e o meu início. Somos um contínuo amaldiçoado, uma tempestade silenciosa que cobre o mundo, sobre os quilómetros que nos separam, sobre as ruas agitadas com as luzes e buzinas de milhões de vidas que não nos conhecem, sobre os pássaros e sobre as árvores; sobre nós próprias, deitadas em camas diferentes que afinal são a mesma.

Não fui eu que pedi por ti; nunca foi o meu lugar fazê-lo. Não sou eu quem te traz de volta, uma e outra vez; quem mantém o teu fantasma vivo de noite e de dia, roubando o teu descanso, sugando o ar do meu peito: és tu, a parte de ti que vive em mim; são as minhas entranhas, que, desde o dia em que algo mais do que o destino nos traçou e até à eternidade, não são mais do que as tuas. Não sei o que sobra da tragédia que somos, deste fogo que nos consome por dentro e que ninguém conhece; que ninguém pode conhecer. Não sei o que resulta da soma de eu e tu; não sei o que resta da diferença. Sei apenas que, ao leres o que sangro, saberás que é sobre ti; é certo, tal como o céu é azul e o Sol se põe a Oeste: é certo, porque estas palavras não são mais do que a superfície do espelho que te sou.

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