Não era preciso dizer nada. Nem sempre é preciso dizer alguma coisa. Há quem diga que isso, essa suficiência do silêncio, vem com o tempo, com a intimidade. Mas isso é partir do princípio de que a intimidade vem com o tempo, o que não é sempre verdade. Não foi assim connosco. Connosco, a intimidade começou no momento em que nos vimos. Pela primeira vez, quero dizer. Soubemos imediatamente tudo um sobre o outro, e soubemos que o sabíamos, e não foi preciso dizer que o sabíamos, nem o que sabíamos. Também não foi preciso falar todos os dias, ou roçar a futilidade das conversas vazias em que tantas vezes caímos para manter uma ligação viva. Não havia nada que requeresse um esforço manter. Havia uma necessidade, apenas isso, e as necessidades sustentam-se a si próprias; são auto-justificadas.

Precisávamos um do outro, e, quando assim era, íamos um ao outro. Nunca dizíamos “olá”, nem perguntávamos como o outro estava, ou se a vida corria bem, ou como ia a mãezinha. Éramos bruscos, nus, e não nos interessava como soavam as coisas que dizíamos, ou se podiam ser mal interpretadas. Nunca eram. Nunca dissemos nem fizemos nada que não pudesse ser moralmente arrepiante para qualquer pessoa que estivesse de fora – mas isso também nos era indiferente, porque era precisamente desse exterior que escapávamos quando nos refugiávamos um no outro. A ideia de alguém saber o que se passava em nós, nas nossas palavras e nos nossos corpos, era impensável. Não era preciso pedir segredo, porque nós próprios éramos o segredo, e pedíamos um pelo outro. Não é que tivéssemos medo do que podíamos perder se se soubesse; não é que morrêssemos se, um dia, descobríssemos que tudo aquilo teria de parar. Na verdade, aquilo era tudo e era nada. É o pensamento que pede porquês e risos e lágrimas, não a natureza. A natureza não precisa de pensar, apenas de existir. Como animais, que se servem do prazer quando lhes apetece e em qualquer sítio, assim éramos nós: primários, brutais, despreocupados ao ponto do desleixo, religiosamente dedicados apenas à exploração total um do outro. Não perdíamos tempo a pensar em quem o nosso capricho podia magoar, porque não era um capricho. Era a vida; a diferença entre a vida e a morte. O instinto que nos levava um ao outro estava para lá de qualquer peso; libertava qualquer culpa.

Não era amor. O amor, como os porquês e os risos e as lágrimas, é pensamento. Não nos interessava a felicidade ou infelicidade um do outro; desejávamos apenas esgotar-nos, consumir-nos, destruir-nos em êxtase. E conseguíamos. Com a maior facilidade imaginável, conseguíamos, porque nos conhecíamos completamente. Conhecíamos a total ausência de barreiras e o escândalo que eram a nossa essência, e que não podíamos mostrar a mais ninguém. Sabíamos de cor todos os limites que, para nós, e só para nós, existiam apenas para serem violados. E, um pelo outro, mostrávamo-los e violávamo-los, usávamo-nos e quebrávamo-nos, com toda a violência misericordiosa que a entrega total implica.

Às vezes, as palavras não são nada; deixam de ser alguma coisa ainda antes de o serem. Às vezes, as pessoas decifram-se ao primeiro olhar, como se já se tivessem encontrado uma e outra vez, em dezenas de outras vidas. Essa força sem nome, que se apodera da alma e do corpo, vive a anos-luz da lógica, do certo e do errado, do bem e do mal. É apenas o que é. Se alguém tivesse querido pará-la, não o teria conseguido. Nós próprios não o poderíamos ter feito. Era destino, fado, loucura, sangue, não sei. Era não saber. Mais do que isso, era não querer saber. Era não importar e ser feliz nessa leveza.

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