Quem dera fôssemos todos cegos, digo-to eu; digo-to do coração, de verdade. Dizia Saint-Exupéry que o essencial é invisível aos olhos; não sei, não sei se será; sei que nos olhos, pelo menos, e com os olhos, claro, pois que outra forma de ver os olhos temos que não os olhos?, se vê muita coisa; e não falo de cores e formas e sombras de pestanas longas ou curtas, não falo de estética e atracção e homens e mulheres fatais, falo do que dói; o que dói vê-se sempre nos olhos. O ressentimento, o ódio, a mentira, o final do amor. O final do amor. Nos olhos, nos olhos vê-se tudo. E por isso te digo, novamente: quem dera não houvesse neste mundo um único ser humano que pudesse ver; talvez só assim fosse possível evitar cada uma destas pequenas facadas privadas, cada uma destas quebras anónimas, que, no final, não são mais do que contas inoxidáveis na corrente inquebrável e infinita da tragédia humana, essa tragédia contínua e universal da vulnerabilidade do sentir humano, esse preço que se paga por se ser diferente dos animais e das plantas, que é isto, precisamente isto; acredita em mim, é isto.

Sóis e luas e milénios passarão por nós, imóveis no seu movimento perpétuo que talvez o seja ou não (certezas não as há, os astros não têm olhos), e nós já não estaremos cá, eu e tu, meu amor; nós já não estaremos cá, nem os nossos filhos, que talvez nunca existam por culpa dos nossos olhos, nem os filhos dos outros, nem os netos dos filhos dos amigos dos outros, desses que conseguem ser cegos por um tempo; mas este sofrimento, esta morte de viver, continuará sempre cá, sob todas as formas e disfarces, como dor e como desilusão e como parte do que é ser pessoa enquanto as pessoas forem pessoas, enquanto puderem ver e ser vistas.

Fecha os olhos e deita-te comigo; apaga a luz; não vejas. Vamos ser crianças para sempre, inocentes para sempre; vamos lavar-nos e limpar-nos no escuro um do outro de todo este cansaço, de toda esta verdade cruel, de todas estas imagens imutáveis que nos controlam; que nos controlam porque as vimos. Dizem também que o amor é cego; dizem-no. Creio que essa parte é verdade.

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