Não olho mais as horas; o tempo é vão.
As memórias, feridas que reabro e reconto,
Números com que justifico o que o cérebro
Já sabe de cor, mas o coração não.

Não sei se te amava ou se amava amar-te;
Não sei como deixar-me, como deixar-te.
Com dedos gastos toco os céus imaginários
Em que nunca me levaste a voar;
Acaricio a pele de veludo da ternura sem fim
Que pintei para nós, para nunca a alcançar.

São já secos os olhos com que te vejo,
Selados para sempre os lábios
Que não receberão mais o teu beijo.
Nesta sala, entre nós, nem sequer agonia;
Apenas o véu intransponível que fomos tecendo
Como aranhas numa teia, dia após dia.

Anúncios