É engraçado como as coisas são. Num momento queremos que o contínuo termine, que nos liberte da prisão voluntária em que nos tem, que ponha fim à agonia sem a qual, contra tudo o que é natural, já não sabemos viver; no seguinte estamos agarrados uns aos outros, presos com braços e lágrimas e memórias, a pedir para o final nunca o ser; a implorar a eles e a nós próprios e à vida para o final nunca o ser. Agarro-me a ti já sem esperança, uma casca vazia de alma, um olhar baço com corpo. Mas agarro-me a ti, e creio que mesmo já sem casca e sem olhar me agarraria a ti ainda, e rezo aos deuses em que não acredito para que o meu toque te atinja no coração e não na pele, para que me leias os pensamentos no aperto desesperado que te dou, para que finalmente me conheças, finalmente, porque assim ficarás; se me conhecesses, ficarias.

Não há vida em mim, penso, esgotei tudo, mas lágrimas que não sabia ainda ter aquecem-me o rosto que também já esquecera, e, por um milésimo de segundo, acredito neles, nos deuses, e até em ti e em mim, e olho-te, olho-te com olhos que brilham agora, mas não como sóis; não, já nunca mais como esses meus sóis; brilham agora apenas porque choram, apenas como berlindes, talvez; como berlindes de criança. Com eles procuro os teus, encontro-os, mergulho neles, perco-me neles. E sinto-o. Sinto que te sei, que te conheço, que já passei uma vida contigo, talvez mais; que não há já qualquer recanto em ti que consigas esconder-me, qualquer medo, qualquer dor. Sem procurar, vejo-as a ambas: a crueldade e a ternura por que te odeio e por que te amo. Meu deus, como te amo. Vejo-te todo; tudo o que foste e és e algum dia serás, todos os momentos que te criaram. Deixo até de te conseguir culpar quando, subitamente, me apercebo de que, nessa paisagem enorme e avassaladora que cabe no diâmetro da tua íris, não me vejo a mim. Não me reflectes; não estou à tua frente, afinal; não sou corpo nem cinza nem nada: e de novo me torno ateia, vazia, uma casca com olhar baço. Quase me apetece sorrir, a tristeza é tão bela, mas não o faço; não o faço, porque não entenderias; porque nunca entendeste, agora sei-o de vez.

Desligo do teu corpo, tão perto e tão longe, e olho à volta. Sei que tenho de dizer adeus. Sei-o no mais fundo de mim, e, no entanto, agora que assim é, aqueles chinelos já não são apenas chinelos, mas sim a encarnação gasta e triste da tua alma, cuja contemplação ameaça fazer de mim mar salgado num segundo; e aquela cama já não é apenas mobília, mas sim todas as vezes que nos deitámos nela, e a forma engraçada como rangia, e cada momento em que nos amámos; e aquela guitarra já não tem nada a ver com uma guitarra; é agora um fantasma pesado e disforme das nossas vozes em uníssono, dos nossos risos, da nossa música — a que se ouvia e a que não. Pergunto-me se todas as pessoas serão assim, se os objectos se transformarão também para elas em amarras na hora do adeus; mas lembro-me subitamente da viagem que acabei de fazer ao fundo de ti, e não, não são; tu não és. Olho-te novamente, já sem lágrimas. Quis dar-te tudo de mim, o bom e o mau e o inclassificável que mais ninguém conhece, mas não ficaste com nada. Sei-o, porque não vi o meu sofrimento nos teus olhos. E o clarão atinge-me: foi ao procurar-me em ti para poder ficar que encontrei, afinal, a força para ir.

Sim; é engraçado como as coisas são.

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