É tarde, e pensar dói; já o dizia Fernando Pessoa, esse homem que, sem o saber, me conheceu tanto como eu própria; pensar dói. Sem escolha, percorro com os dedos da mente as malhas implacáveis da memória: o ónix daqueles olhos, o veludo das mãos, a forma desarmante como todo o seu verdadeiro ser parecia irromper-lhe pela pele quando ria. Sem que eu o soubesse, aquela era a última vez que o tocava, que o olhava, que sentia em mim o seu calor de pessoa; aquele calor que, inexplicavelmente, nunca é igual a outro, nunca. Mas falo escusadamente; só por isso era possível, porque não o sabia ainda. Jamais o meu coração teria conseguido dizer-lhe adeus sabendo o que fazia; não, teimo e repito; não, nunca.

Olhando para trás, aqueles foram os dias em que a vida me ensinou de uma vez por todas que ninguém podia saber de mim senão eu. Que mais ninguém, em todo este universo tão inutilmente infinito, podia entrar, saber, julgar, decidir. Nunca me senti tão só como nesse instante, o instante em que soube para sempre que para sempre estaria só. As vozes ressoavam na minha cabeça, resistiam, não se entendiam; toda a melodia se perdera, restava apenas a confusão. Nessa altura, tive medo por mim. Quis fechar-me, ser transparente, dormir seis meses; mas ei-la sempre, a humanidade, a condição humana, a acorrentar-me, a impor-me os limites insustentáveis do possível; a negar-me o descanso, o fim sem fim.

Sim; vejo-o agora, como mera espectadora de uma catástrofe natural a quilómetros e quilómetros do limite do meu alcance, como testemunha indiferente de mim própria; vejo agora, de mãos atadas e lábios selados de cansaço, que foi no centro desse nevoeiro que a verdade me atingiu finalmente, a verdade que mataria a minha alma, alegria e dor e tudo; a verdade que faria de mim uma carcaça enquanto respirasse: o amor não é mais do que um momento, um momento sempre já passado.

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