Soube que o amava quando me beijou. Era de noite e estava a chover, aquela chuva miudinha que parece não saber ao certo quem ou o que quer molhar, e havia muita gente, gente por todo o lado, gente abafada pelo som da música e pela euforia e pelo álcool, e ambos sabíamos o peso do que estávamos prestes a fazer, a forma como depois daquilo nunca nada poderia voltar a ser o mesmo, mas não nos importámos; era a leveza que era insustentável, não o peso.

Abria caminho por entre a multidão quando, subitamente, o senti puxar-me pela mão que eu entrelaçara na dele; um único gesto forte e absoluto, um gesto que não me dava escolha. Naquele momento, tudo desapareceu: a chuva, a gente, a música; tudo. Não havia mais certo nem errado, não para mim; apenas aquele choque eléctrico a percorrer-me cada centímetro de pele, aquela onda que ainda me entorpecia cada músculo do corpo e cada canto do cérebro quando, tonta e flutuante, a sentir cada segundo como se de uma vida inteira se tratasse, rodei sobre mim própria para o enfrentar. Alto, tão mais alto, e mãos grandes, e braços que me podiam proteger contra tempestades e contra guerras e contra o mundo; talvez até contra mim própria. Sabia o que ia acontecer e queria-o mais do que tudo na vida, mais do que à minha sanidade. “Seria muito mau se te beijasse agora?”, disse ele, simplesmente. Tão breve, tão óbvio, tão livre, como se todas as explicações necessárias se encontrassem já gravadas a sangue naquele puxar e naquelas curtas palavras; como se não fosse preciso mais qualquer contexto. E não era. Sem que tivéssemos trocado um único som nesse sentido, ele sabia que eu sabia; nunca o teria feito se não o soubesse. Cada nota ondulante daquela frase entrou em mim lentamente como as gotas de chuva que me coroavam o cabelo, violentamente como um trovão, e de novo o choque se apoderou de mim, demasiado desarmante para ser contrariado. Vontade; paixão. “Não”, respondi, baixo mas com firmeza, mal o sangue recomeçou a fluir em mim. Simplicidade para simplicidade; óbvio com óbvio.

E, sem mais nada, eles tocaram-se, os nossos lábios. Sob as águas de Maio, no centro da multidão bêbada de álcool e de juventude, ao som do que quer que fosse que tocava mais próximo de nós, os nossos lábios uniram-se, e com eles a nossa alma, e os nossos sonhos, e a nossa dor, e todos os dias e semanas e meses de desejo reprimido por aquele momento. Foi esse o princípio da nossa eternidade, da única imortalidade possível: a de se saber estar para sempre vivo dentro de outra pessoa.

Mais tarde, perguntar-lhe-ia porquê aquele momento, e não qualquer outro. Porquê aquele instante no centro da confusão, a meio caminho de qualquer sítio que não mais faz sentido recordar, em plena chuva primaveril. Porque não cinco minutos antes, ou dez depois; afinal de contas, haviam sido largas e longas horas de paciência, de espera. “Por causa disto”, disse-me, e entrelaçou os dedos nos meus, como eu fizera naquela noite. “Nunca o tinhas feito, nunca me tinhas segurado assim. Nesse momento, tive a certeza de que eras minha”. Simples; óbvio. E, nessa altura, soube que o amava ainda mais, por me ver tão bem.

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