Haviam-se calado para o mundo, mas o ar entre si, aquele que só eles viam, continuava carregado – vestido de significados, grávido de promessa. Pouca ou nenhuma falta lhes fazia essa fachada de vazio para provar a impossibilidade de vazio entre eles; como lhes assentava tão mal como roupa por combinar, como um demónio entre anjos; mas a circunstância viera confirmá-lo a mal ou a bem, a preto no branco, a sangue em sangue.

“Perto ou longe, longe ou perto, hoje ou ontem ou amanhã ou para sempre, tu mudaste a minha vida”, dizia-lhe ela, num esforço de expressão de que não sabia ainda não precisar. “Dizem que há pessoas que nos roubam e pessoas que nos devolvem; foi isso, tu és isso; acho que naquela noite me voltei a ver de novo, eu, que nem sabia que me tinha perdido de vista; voltei a ver-me em ti”, continuava, e ele acariciava-a em silêncio, deixava-a banhar-se nas palavras desnecessárias, naquelas palavras que ela tanto amava, que a constituíam tanto como a pele e o sangue e cada átomo do corpo – e ele amava aquela pele e aquele sangue e aquele corpo, e até aquelas palavras, porque eram dela, porque não havia alternativa; estavam presos, tinha acontecido, era para sempre.

Mas não é fácil explicar. As metáforas vulgarizam-se em bocas insinceras, em emoções baratas, e depois não há nível seguinte ou degrau mais alto para descrever que encontrámos o nosso outro eu, que é aquela a nossa pessoa, e não qualquer outra. “Olha, é esta, é esta a minha cara-metade”, ouve-se dizer ao mundo uma e outra vez, mas as palavras soam ridículas, não têm as asas que lhes imaginou, não voam; caem por terra logo após a subida, como gaivotas magoadas; caem por entre a areia e o sal e mais mil outras como elas, iguais a elas – de diferentes timbres, talvez, mas iguais, fundamentalmente iguais.

Desilude-se com a inutilidade da empreitada: todas essas almas que se cruzam com a sua na rua continuarão na ignorância; nunca saberão como é ser-se inesperadamente salvo por alguém quando nem se sabia precisar de salvação, não saberão como foi. Julgá-la-ão mais uma de entre milhões de adolescentes; adolescentes no coração, não na carne; adolescentes de todas as idades, como o somos todos na paixão, quer aquela seja a nossa pessoa ou não, quase indiscriminadamente.

Fecha os olhos e aperta-o com mais força, com o impulso oferecido pela frustração dos pensamentos. Assim tão perto, ouve-lhe o bater forte do coração, que se propaga por todo ele como uma onda, estendendo-se pelo corpo dela até os dois corações se fundirem em uníssono e baterem ao mesmo ritmo, indistinguíveis. Reflecte que aquele é o som mais forte que algum dia ouviu e prende-se ainda mais; agarra-se à vida constante e inegável daquele corpo quente à sua frente, daquele porto de luz em que as metáforas se perdem. E, subitamente, entre dois pulsos, naquele ar carregado de leveza, nota pela primeira vez o seu silêncio. Apercebe-se de que, pelo menos a ele, não tem de explicar nada. Nunca teve, nunca terá; ele soube-a logo, soube-a antes de a ouvir, se calhar até antes de a ver; se calhar nasceu apenas para a saber. Sente-lhe o toque suave e, num instante impalpável, as vozes ansiosas tranquilizam e desvanecem: é assim tão simples. Não precisa de mais nada, afinal.

E, em paz, sorri.

Anúncios