O sofrimento ensina mais do que a felicidade. O sofrimento faz crescer mais do que a felicidade. Não é recente, a minha defesa deste argumento – nem original, confesso. De qualquer forma, a única pessoa da minha intimidade que discordou abertamente dele foi, ironicamente, a que mais me ensinou e fez crescer. Fê-lo, aliás, nesse preciso instante em que, de forma tão acesa, rejeitou a validade da minha visão de vida, atirando por terra todas as filosofias criadas, cuidadas e amadurecidas na incubadora mais funda da minha alma com o mesmo cuidado com que se espana pó de lençóis velhos e rotos: procurando, talvez, que me envergonhasse delas, que as rotulasse de estúpidas sob o seu peso e à luz da sua benção distorcida, de forma a melhor me encaixar no quadro que, todos os dias, pintava apenas com as suas cores; aquela representação estrangeira que a sua mente fazia do mundo e onde, sozinho na eterna dança xenófoba dos seus próprios dedos, ele almejava definir permanentemente tanto o que lhe pertencia como o que não. Assim são todos os ditadores, afinal; uns de forma mais óbvia do que outros.

Bom, a verdade é que, com a sua divina permissão ou sem ela, aqui estamos ainda, eu que escrevo e vocês que lêem, e eu continuo a dizê-lo, cada vez com mais convicção: o sofrimento faz crescer mais do que a felicidade. A prova, se mais alguma é necessária, é que nesse dia cresci, sim; cresci mais do que aquela pessoa, porque preferi sofrer a permitir que me fosse imposta cegamente a sua convicção, contrária à minha, de que o sofrimento não faz crescer. Pergunto-me se algum dia terá percebido a ironia. Creio que não. Naquele quadro exaustivo que ainda hoje provavelmente pinta, e amanhã como hoje pintará, ele é sempre o vencedor. É essa a vantagem de se ser o único jogador.

Tudo isto para dizer que, após a pisadela, e se ambos lhe sobreviverem, o pisado é maior do que o que pisa. Mais forte, porque se conhece melhor. Mais sábio, pois terá aprendido mais um caminho pelo qual não pode ir se quer manter-se intacto e íntegro. O que pisa não aprende nada. Apenas se vangloria do seu poder se tiver sido bem-sucedido, ou se frustra com o desperdício da empreitada se o seu auto-estipulado inferior não tiver sido devidamente esmagado. Independentemente do resultado, a sua acção seguinte é sempre a mesma: procurar outra vítima. Não há nada a repensar, nada a admitir, nada a perceber. Não há nada mais acima para aqueles que crêem já estar no topo. O karma da situação é que, em geral, se imaginam tão alto, tão longe, que ficam sozinhos e inacessíveis no pedestal que sozinhos e inacessivelmente esculpiram. Não que eles se importem.

Talvez julguem que, se questionada sobre qual a melhor forma de existir – a que começa na terra e cresce contra a gravidade ou a que parte logo lá de cima, a trepar em frágeis nuvens falsas –, responderei automaticamente que, naturalmente e por tudo o que neste mundo é certo e bom, só pode tratar-se da primeira. Não. Não me vendo tão facilmente a bonitas nobrezas vazias – nem, por outro lado, às megalomanias cegas que lhes são opostas. Na verdade, não me cabe responder a essa questão. A única contribuição que posso oferecer encontra-se lá atrás, na primeira de todas as frases deste texto, na conclusão do silogismo implícito com que iniciei este devaneio circular: aprender não é felicidade.

Também o mundo é um círculo; uma esfera. A vida é a perspectiva. E a perspectiva é a escolha.

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