Título Original: 眠り (Nemuri)
Título em Portugal: Sono
Autor(a): Haruki Murakami
Ano de Publicação: 1989
Edição: Casa das Letras, 2013
N.º de Páginas: 90
Encadernação: Capa Dura
Preço: €14,90 (Fnac)

  Classificação: 8/10 (Muito Bom)  

Nesta metáfora gigante e profundamente desconfortável corajosamente tecida por Murakami, apenas uma mensagem me parece necessariamente propositada e certa, e é ela que tem de servir de base a todas as restantes interpretações: a rotina é a morte do ser. A rotina é o adormecer da alma. O adormecer da alma é a morte do ser.

O sono é um fenómeno contra o qual travo uma luta constante desde que me lembro de ser gente – na verdade, segundo os meus pais, desde muito antes disso. Afinal de contas, este blog chama-se “pássaro nocturno” por algum motivo: para mim, a noite sempre foi para viver, não para dormir. Sim, sempre tive uma relação conflituosa com o sono; amor-ódio, poder-se-ia dizer. Talvez por causa disso, a capa deste conto de Murakami, escrito em 1989 e posteriormente inserido na sua compilação de 1991, Zō no shōmetsu (O Elefante Evapora-se, na tradução portuguesa), mas agora lançado em português em nome próprio, chamou-me imediatamente a atenção. Esta edição, além de uma bonita encadernação dura e da impressão em papel grosso envernizado, possui as muitíssimo bem conseguidas ilustrações da artista alemã Kat Menschik, cujo impacto desconfortável serve de justo acompanhamento ao das próprias palavras de Murakami, como um complemento extra à sensação arrepiante de mau presságio a que, enquanto leitores, nos sujeitamos voluntariamente na absorção deste thriller místico da vida moderna.

A metáfora, a fantasia e o misticismo não são estrangeiros na obra de Murakami, e o mesmo pode ser dito, em maior ou menor grau, sobre os finais em aberto. Na verdade, uma mistura destas duas características não é rara no trabalho deste autor simultaneamente exótico e universal, que tantas pontes tem conseguido traçar entre a cultura oriental moderna e o nosso avassalador mundo ocidental. A jovem protagonista de Sono, cujo nome nunca chegamos a conhecer, abre este conto revelando-nos que “há dezassete dias que não dorme”. Procede, então, para nos descrever, como muitas vezes acontece em Murakami, o seu dia-a-dia: ao pormenor, são-nos apresentadas as suas preparações culinárias, a música que ouve, o carro que conduz, os livros que lê, os pensamentos que lhe cruzam a mente quando se vê ao espelho, a sua (boa) relação com o marido e o filho, ambos completamente normais, e tudo o resto que compõe a repetição rotineira dos seus dias. A vida da nossa heroína não tem nada de extraordinário, e é precisamente na inexistência de problemas que reside o seu maior problema: um problema que, no início, e como tantos de nós, nem sequer sabe ter.

Com o decorrer do seu período cada vez mais longo sem dormir – que, desde a frase inicial, nos é narrado em retrospectiva –, a mulher de Sono descobre, para sua surpresa, que não se sente com menos energia, antes pelo contrário: na vida dupla e secreta que acaba por desenvolver durante as horas de escuridão, dá por si a fazer todas as coisas de que gosta e de que, com o turbilhão paradoxalmente monótono da sua vida de casada, até já esquecera gostar, como deixar-se perder realmente na trama de um romance, comer chocolate, beber conhaque: tudo isto com toda a paixão, entusiasmo e vivacidade que faltam dramaticamente na forma cada vez mais mecânica e automática com que desempenha todas as suas tarefas diurnas de sempre. Por outro lado, com a intensidade crescente do contraste entre as suas duas existências, pensamentos assustadores começam também a assaltar a protagonista: reflexões sobre a natureza da morte, questões sobre a origem da sua actual condição biologicamente impossível… e, até, numa noite de particular clímax, a súbita e aterradora certeza absoluta de que um dia deixará de amar o filho.

As interpretações possíveis em Sono são infinitas: quer no que diz respeito ao significado do que se está a passar com a nossa heroína, quer, mais especificamente, acerca da cena final (que, por razões óbvias e intrínsecas à natureza da obra, não revelarei aqui em pormenor). Terá todo o processo sido a morte? Terá todo o processo sido um sonho, e o final o acordar? Terá algo particularmente macabro, como um homicídio ou suicídio, estado na origem do enredo? O que representam o filho e o marido da protagonista? O que representa o “sonho acordado” que a mesma tem na primeira noite em que não consegue dormir? Nesta metáfora gigante e profundamente desconfortável corajosamente tecida por Murakami, apenas uma mensagem me parece necessariamente propositada e certa, e é ela que tem de servir de base a todas as restantes interpretações: a rotina é a morte do ser. A rotina é o adormecer da alma. O adormecer da alma é a morte do ser. São estas ideias o sumo, o ouro e a maior recompensa de Sono. Tudo o resto, todas as diferentes conjecturas que a obra permite em relação a praticamente todos os pormenores que a constituem, são polpa para uma boa e longa discussão: bem mais filosófica, até, do que literária.

Sono é uma história a que não é possível ficar indiferente. É uma história que, depois de nos obrigar a lê-la de uma só assentada, nos faz procurar desesperadamente alguém com quem falar sobre ela; a quem perguntar “o que achas que isto significa?”; com quem desenterrar teorias cada vez mais profundas e, por vezes, mais sombrias. Vai confundir-vos, vai mexer com vocês sem pedir licença, vai fazer-vos saltar de hipótese em hipótese um milhão de vezes: tudo isto no espaço ridiculamente curto entre a primeira e a última página. Como já mencionado acima, as fantásticas ilustrações de Kat Menschik que acompanham esta nova edição, em si recheadas de pormenores e simbolismos que exigem muito mais do que um olhar até aceitarem mostrar-se a nu, são o tempero perfeito para tornar esta numa experiência que vale muito mais do que o tempo que demora. Neste Murakami vestido de David Lynch, tudo significa alguma coisa, e as possibilidades são infinitas. No centro, a natureza humana: a mesma que permite que estas poucas e simples palavras belisquem e fascinem uma e outra vez a curiosidade de quem as lê, sem cessar e sem perdão.

Uma bela ideia para um presente de Natal, mesmo para os estranhos a Murakami.

  • Classificação: 8/10 (Muito Bom)
Anúncios