Título Original: A Song of Ice and Fire
Título em Portugal: As Crónicas de Gelo e Fogo
Autor(a): George R. R. Martin
Ano de Publicação: 1996 (A Game of Thrones),
1998 (A Clash of Kings), 2000 (A Storm of Swords),
2005 (A Feast for Crows), 2011 (A Dance with Dragons)
Edição: Harper Voyager, 2011-2012
Encadernação: Capa Mole
Preço [Pack]: £42,25 (Amazon)

  Classificação: 9/10 (Excelente)  

  Crítica sem spoilers. Ler livremente!  

[…] a maior riqueza de A Song of Ice and Fire, o seu bastião mais alto e intocável – mais do que dragões, ouro, ou dragões de ouro – é a sua ausência de julgamento, os cinzentos infinitos da sua moralidade. Mesmo na literatura mais corajosa, estamos preguiçosamente habituados a definir “bons” e “maus”, rótulos que colamos distraidamente em figuras cujos contornos nos são fornecidos quase sempre de um só ponto de vista – muito como na vida real, em que cada ser humano tem apenas o seu. Martin não nos permite nenhuma dessas facilidades, nenhum do julgamento automático e preconceituoso que exercemos tanto no que lemos e vemos como nas nossas relações do dia-a-dia.

(Nota: Neste tipo de literatura é particularmente importante evitar spoilers, e, por isso mesmo, abdicarei de me referir a eventos específicos, focando esta crítica no universo da história em si e na construção global das personagens.)

Quando, há cerca de dois anos e meio, comecei a escrever críticas literárias para este blog, tinha uma regra implícita em mente, nunca constatada em voz alta mas, ainda assim, respeitada à partida, pelos motivos práticos óbvios: não escrever críticas sobre séries de livros, muito menos sobre séries inacabadas. Esta pequena lei de selecção, fundada em lógica pura, nunca chegou sequer, na verdade, a ser desafiada: a maioria das séries que li são enormes colecções infanto-juvenis de pouca relevância para uma abordagem neste ponto da minha vida, e a literatura fantástica, género no qual se inserem a maioria das histórias divididas em vários volumes, nunca se enquadrou minimamente na necessidade de ir sempre mais longe e mais fundo que caracteriza a minha personalidade realista, nem mesmo em criança: sendo Harry Potter, provavelmente, a única excepção a ambos estes pontos, na medida em que foi – e sempre continuará a ser – uma aventura mágica que deixou em mim uma enorme marca, tatuada a lições e significados sem idade ou prazo de validade.

Com isto dito, e como quem me lê já deve ter percebido, nunca me imaginei a ler algo sequer próximo da densa série fantástica recheada de noções e nuances históricas que George R. R. Martin, um norte-americano que me apressei a julgar, por generalização, como vazio de cérebro e sentimento, iniciou tão discretamente em 1996, e que, até ao lançamento recente da série televisiva, recebera apenas atenção de culto, como tantas outras dentro do género. Na verdade, mesmo após a explosão de popularidade do universo de Martin em anos recentes, a minha resistência a pegar sequer em A Game of Thrones, o primeiro volume da saga, foi de aço, tendo levado muitos meses (e custado ainda mais recomendações de amigos tidos em boa consideração) a quebrar. Escrevo este artigo cerca de um ano e quatro meses após o dia em que finalmente – e felizmente – quebrou: após ter lido todos os volumes já lançados de A Song of Ice and Fire e deixado que a paixão inevitável pelo seu universo me inundasse completamente.

O que Martin – afinal um senhor de origens humildes já dos seus 65 anos, vazio de pretensiosimo e muito rico em humanidade e inteligência, ao contrário de tudo o que, sabendo-o autor norte-americano de ficção científica e fantasia, o imaginei – fez com A Song of Ice and Fire é algo único no espaço e no tempo. Esta quase-epopeia massiva, dividida em sete volumes (dos quais apenas cinco se encontram finalizados), centra-se nas lutas de poder nos Sete Reinos – na realidade, um único reino unificado – de Westeros, um dos quatro continentes do mundo de influência fortemente medieval imaginado por Martin. A par das guerras brutais pelo Trono de Ferro, desenroladas tanto no campo de batalha como nos bastidores, a saga possui componentes de magia, desde os dragões, monstros de fogo e destruição desaparecidos do mundo desde há mais de cem anos mas agora misteriosamente regressados, aos Caminhantes Brancos, criaturas de gelo e morte que se deslocam lentamente para sul, tendo entre si e todos os habitantes dos Sete Reinos apenas a gigantesca Muralha de Gelo, uma estrutura no limite norte de Westeros pobremente protegida pela Patrulha da Noite, organização outrora impressionante e respeitada que hoje se contenta em servir de alternativa à execução para criminosos de todo o reino. Desde o primeiro livro, somos apresentados às principais famílias de Westeros: os Stark de Winterfell no Norte gelado, honrados e soturnos; os ricos e poderosos Lannister de Casterly Rock, uma família com membros muito diferentes entre si mas unidos no orgulho e na força da personalidade; os Baratheon de Storm’s End, impulsivos e temperamentais, no poder quando a história começa; e, finalmente, os belos e intensos Targaryen do sangue de dragão da antiga Valíria, cujo reinado em Westeros durou quase trezentos anos, tendo o seu final recente, às mãos da revolta de Robert Baratheon, deixado os descendentes sobreviventes sedentos de vingança. A eles juntam-se muitos outros, de casas grandes e pequenas, e o conhecimento íntimo das suas cores, lemas e traços individuais cria facilmente no leitor um sentimento de pertença a uma ou outra família, sendo essa uma das razões que explica a intensidade do fanatismo verificado em muitos dos fãs da série. Proximamente ligada a essa razão está outra; aquela que é, na minha opinião, a maior riqueza de A Song of Ice and Fire

…e a maior riqueza de A Song of Ice and Fire, o seu bastião mais alto e intocável – mais do que dragões, ouro, ou dragões de ouro – é a sua ausência de julgamento, os cinzentos infinitos da sua moralidade. Mesmo na literatura mais corajosa, estamos preguiçosamente habituados a definir “bons” e “maus”, rótulos que colamos distraidamente em figuras cujos contornos nos são fornecidos quase sempre de um só ponto de vista – muito como na vida real, em que cada ser humano tem apenas o seu. Martin não nos permite nenhuma dessas facilidades, nenhum do julgamento automático e preconceituoso que exercemos tanto no que lemos e vemos como nas nossas relações do dia-a-dia. A sua história é contada através dos distintos pontos de vista de várias personagens tão diferentes entre si quanto possível, com uma mudança literal da perspectiva de capítulo para capítulo. Este sistema, altamente original na literatura, é tão inteligente quanto humano, permitindo o acesso a dezenas de mentes divergentes e cortando pela raiz todos os atalhos da falsa moral: somos mesmo confrontados – extensivamente confrontados – com o melhor e o pior de cada personagem com que nos cruzamos, desde as que estamos mais naturalmente inclinados a adorar às que queremos com todas as nossas forças detestar, e o resultado é, além de uma criação multidimensional e complexa, o estabelecimento de um nível de empatia dificilmente encontrado em qualquer tipo de arte. Aliado a um esforço de introspecção, este processo tem até o potencial para gerar uma mudança interna no leitor: uma mudança no sentido da tolerância, não apenas para com pessoas que existem apenas em papel e ecrãs, mas para consigo próprio e para com todos os que vê.

Também o realismo cru, o tal que sempre me fez falta e que raramente encontrei na fantasia, tem um lugar de honra em A Song of Ice and Fire, e não apenas nas muitas descrições pormenorizadas de sexo e violência: seguro do caminho controverso que tem traçado já desde o início, Martin não hesita em matar personagens, das mais detestadas às mais populares, incluindo algumas daquelas às quais é dado o destaque de servir de ponto de vista. Nesta história sem heróis principais, a lição transmitida é que todos podem morrer – e eventualmente morrem. Esta atitude de Martin, tão implacável como a vida, dá um sabor único à saga, uma mudança refrescante em relação às típicas histórias “viveram felizes para sempre”, e gera um plateau de emoções fortes que, aliado ao consequente sentimento de suspense e de querer sempre saber o que vai acontecer a seguir, sela a fórmula da popularidade.

Em 2011, Game of Thrones, a série televisiva da HBO baseada na enormíssima obra de Martin, veio abalar o mundo, atraindo legiões de fãs e criando obsessões muito para lá dos limites tradicionais do sexo, da idade ou da cultura: um culto na ordem dos milhões, muito superior em número – como, aliás, é costume – ao do seu original escrito. Trata-se de uma mega-produção em alta escala, com actores e locais escolhidos a dedo de entre todas as partes do mundo, um genérico e tema musical muito dificilmente esquecidos, e a participação do próprio autor como consultor. Perante uma oferta tão fácil e apelativa ao olhar, coloca-se a questão de sempre: vale a pena ler os livros?

Sim. Claro que sim. Sim, sim, sim; mil vezes sim. Em primeiro lugar, a série televisiva não é totalmente fiel ao original, e, para os mais curiosos, também não se move a um ritmo suficientemente rápido; no momento em que escrevo este artigo, faltam vários anos para que atinja o ponto em que os livros se encontram. Mas não se deixem enganar: essas são apenas as razões mais práticas e supérfluas. Os verdadeiros motivos pelos quais ver Game of Thrones não deve ser encarado como um substituto para a leitura de A Song of Ice and Fire prendem-se com a intensidade infinita e indescritivelmente superior da experiência literária da história, explicada tanto pelo sistema narrativo da alternância de pontos de vista como pela riqueza de cada pormenor imaginado e posto em palavras pela mente absurdamente criativa de Martin, desde as precisões geográficas do universo que criou do nada às descrições quase palpáveis, tanto físicas como psicológicas, de cada uma das centenas de personagens a que deu vida.

Com o seu universo e conjunto de personagens inesquecíveis, apresentados em escrita extremamente fluida e não pouco talentosa, A Song of Ice and Fire derrubou a muralha da minha teimosia e tornou-me mais humilde no julgamento artístico; menos precipitada a dispensar obras fantásticas e/ou contemporâneas para o saco da literatura acessória. Depois de ler – ou, melhor dito, absorver avidamente – o que existe da saga até agora, consigo compreender o porquê de tantas pessoas que respeito me terem recomendado, vezes e vezes sem conta, que o fizesse. O mínimo que posso fazer é agradecer-lhes, e dar continuidade ao favor: leiam. Homens, mulheres, de qualquer idade, de qualquer região do mundo: leiam. Mesmo que já estejam a ver a série televisiva. Mesmo que geralmente não gostem de ler. Mesmo que, que, que. Leiam. É grande, sim… mas flui como um rio.

  • Classificação: 9/10 (Excelente)
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