Título Original: 象の消滅 (Zō no Shōmetsu)
Título em Portugal: O Elefante Evapora-se
Autor(a): Haruki Murakami
Ano de Publicação: 1993
Edição: Vintage, 2003
N.º de Páginas: 330
Encadernação: Capa Mole
Preço: £7,19 (Amazon)

  Classificação: 6/10 (Satisfatório)  

Os romances posteriores [de Murakami], e até alguns dos contos presentes aqui mesmo, são belos exemplos de surrealismo e humanidade em harmonioso casamento; convites à reflexão cuidadosamente bordados com a fina e rica linha de desconforto e perturbação que hoje caracteriza o autor. Em nome destes exemplos, que merecem e devem ser conhecidos, os seus irmãos menos virtuosos são perdoáveis e perdoados, pelo que, no seu global, The Elephant Vanishes é uma experiência interessante e recomendável, não se tratando de todo se uma perda de tempo: desde que se mantenha uma mente aberta e tolerante para com os devaneios inexperientes e menos enriquecedores do autor.

Murakami é um autor com duas facetas principais, que mostra em maior ou menor medida e em balanço variável de obra para obra: a mística e a humana. A primeira prende-se com a sua utilização frequente do realismo mágico, ou seja, da integração natural de aspectos fantasiosos numa realidade que, à excepção dos mesmos, é lógica, e do surrealismo, que, no caso de Murakami, inclui características variadas, desde um absurdo muito reminiscente de Kafka a fortes componentes oníricos, metáforas gigantes e significados escondidos (e, muitas vezes, perturbadores). A segunda faceta de Murakami, aquela a que chamei “humana”, traduz-se na sua análise crua e mais ou menos directa da natureza das suas personagens; na sua exploração, utilizando a história, da realidade do que é ser humano sob todas as suas formas, desde os pequenos actos repetitivos do dia-a-dia ao que só existe na alma. Estas facetas, quando presentes em conjunto, aliam o misterioso ao comovente, o perturbador ao empático, e selam a fórmula que torna Murakami um autor tão particular – e popular.

The Elephant Vanishes é uma compilação de dezassete contos escritos entre 1981 e 1991, vários anos antes dos primeiros verdadeiros sucessos do autor. Metade deste livro, embora demonstrando um escritor mais verde do que o Murakami a que estou habituada – um escritor que, definitivamente, ainda procura a sua voz –, consegue transparecer e, por vezes, unir as facetas que referi acima, atingindo o limiar do desconforto que torna este autor tão único e que é, talvez, a característica que mais aprecio e valorizo nele: um desconforto fundado nos finais em aberto que convidam à reflexão, no mistério do que fica por dizer, na estranheza das realidades que nos são apresentadas, nas profundezas da natureza humana em que subitamente nos vemos caídos de forma insuspeita. A outra metade é pura tolice.

Mas vamos por partes. Quando bem utilizado, o surrealismo é um estilo extremamente interessante, cujo mistério é fonte tanto de fascínio e entretenimento como de potencial para momentos de importante reflexão e introspecção: Kafka e Camus, afinal, provaram isso mesmo. “Sleep”, já comentado numa crítica anterior, é, sem dúvida, o tributo de The Elephant Vanishes ao surrealismo no seu melhor, e o ponto mais forte desta compilação. Enquanto metáfora gigante sobre a vida e a morte, o conto envolve o leitor num véu gelado mas apertado de insegurança, para depois terminar subitamente, deixando-lhe na boca um travo amargo… e muitas, muitas questões. Apenas dois outros contos daqui conseguem dar vida a um enigma de características semelhantes, e igualmente capaz de gerar questões a que vale a pena tentar responder: “Barn Burning”, uma história sobre um homem que queima celeiros por recreação, e “The Last Lawn of the Afternoon”, em que o trabalho part-time de um jovem enquanto cortador de relva o leva à estranha casa de uma estranha mulher com uma estranha história. Tanto num como noutro, o efeito “puzzle” e as consequentes sede de respostas e elaboração de teorias por parte de quem lê são conseguidos com sucesso, resultando numa experiência compensadora. Dos restantes catorze contos, os que apresentam verdadeira qualidade devem-na todos, sem excepção, à faceta empática de Murakami: ao seu tratamento da tristeza, solidão e trauma que predam a alma humana, e a capturam de tão diferentes formas; à sua exposição das curiosidades da vida, e das escondidas e raramente notadas relações causa-efeito entre pequenos eventos e grandes decisões; à ligação que consegue formar entre o leitor e as suas personagens quando investe realmente na génese e acabamento destas últimas. Destes, alguns bons exemplos são “The Silence”, a história de um homem que sofreu bullying na adolescência, que, além de uma crítica provavelmente intencional ao sistema escolar japonês, é uma verdadeira lição de vida e valores; “A Window”, com a sua exploração comovente da solidão em qualquer idade; “Lederhosen”, sobre o divórcio caricato de um casal de idade avançada, que demonstra como pequenos pormenores podem carregar de forma irreversível em grandes botões no nosso cérebro; e, por fim, “A Family Affair”, um conto sobre a tolerância e o crescimento baseado no contraste entre diferentes formas de vida – neste caso, a de um jovem adulto, a da sua irmã mais nova e a do noivo desta. Também bem sucedidos, embora num estilo um pouco diferente, são “On Seeing the 100% Perfect Girl One Beautiful April Morning”, o conto mais curto desta compilação e uma elaboração romântica e fatalista de inegável beleza com um sentimento muito nipónico, e “The Kangaroo Communiqué”, uma pequena visita ao absurdo narrada num tom leve e divertido que, não sendo, na verdade, sobre coisa nenhuma, não deixa de ter o seu encanto, ao nos expor uma personalidade fora do chamado “espectro do normal” e nos fazer questionar os limites do aceitável. Ironicamente, “A Slow Boat to China”, apesar de recheado de frases que, por si só, ficam gravadas na mente e nos vemos facilmente a citar, não é, enquanto conto, uma experiência muito marcante – talvez por perder gradualmente em confusão e caos o que quer que pudesse estar a tentar transmitir –, dando a sensação de potencial desperdiçado.

Mas existe sempre o reverso da medalha, e, neste livro, ele é inquestionável. O surrealismo, o realismo mágico e o absurdo são meios para um fim que, para funcionarem devidamente e significarem alguma coisa, necessitam de um fio condutor dentro da sua estranheza, assim como de um investimento pelo menos igualmente forte no recheio empático da acção e das personagens: algo que, na maioria do que conheço da sua obra, Murakami parece saber e respeitar. No entanto, “The Elephant Vanishes”, o conto que dá nome à compilação, “The Little Green Monster”, “TV People”, “The Second Bakery Attack”, “The Fall of the Roman Empire, The 1881 Indian Uprising, Hitler’s Invasion of Poland, and the Realm of Raging Winds” e, mais do que qualquer outro, “The Dancing Dwarf”, são, todos eles, exemplos de má utilização de técnicas que, geralmente, Murakami domina bem. Promessas vazias de mistério que, no final, se releva inexistente, estas histórias parecem francamente escritas ao acaso ou sob o efeito de substâncias psicotrópicas, não possuindo qualquer encadeamento lógico, nem sequer dentro do seu próprio universo. Esta aleatoriedade supostamente grávida de significados que acabam por não nascer tem um forte sabor a pretensiosismo, revelando, talvez, a inexperiência e falta de rumo literário definido do autor à data em que assinou os contos de The Elephant Vanishes (não tenho a certeza de que esta explicação seja “desculpa” suficiente, mas é um possível motivo). No entanto, uma coisa tem de ser dita acerca de Murakami: mesmo estas últimas histórias, que, em total honestidade, são realmente fracas em conteúdo, são também absurdamente fáceis de ler, fazendo jus à – essa sim, constante e mantida – embalagem de simplicidade de linguagem e acessibilidade de forma em que o autor gosta de embrulhar todo o seu conteúdo, significativo ou não, e que lhe permite o raro estatuto de escritor simultaneamente exótico e universal.

Durante uma das minhas múltiplas investigações cibernéticas relativas às possíveis interpretações de vários dos contos presentes em The Elephant Vanishes, deparei-me com o testemunho de um outro leitor que, talvez por me encontrar numa fase de frustração com Murakami, me proporcionou algum riso. Passo a citar: “Se Hemingway escreve usando o método do iceberg, em que a grande massa do significado se encontra submersa abaixo da superfície, Murakami escreve usando o método OVNI, em que a história é estranha e fascinante, mas provavelmente não passa de uma ilusão” [tradução livre do texto original encontrado em Writer on Writer]. No que diz respeito a muitas das histórias desta compilação, vejo-me obrigada a subscrever a opinião. No entanto, as generalizações são perigosas, e esta não deve ser feita a todo o trabalho de Murakami. Os seus romances posteriores, e até alguns dos contos presentes aqui mesmo, são belos exemplos de surrealismo e humanidade em harmonioso casamento; convites à reflexão cuidadosamente bordados com a fina e rica linha de desconforto e perturbação que hoje caracteriza o autor. Em nome destes exemplos, que merecem e devem ser conhecidos, os seus irmãos menos virtuosos são perdoáveis e perdoados, pelo que, no seu global, The Elephant Vanishes é uma experiência interessante e recomendável, não se tratando de todo se uma perda de tempo: desde que se mantenha uma mente aberta e tolerante para com os devaneios inexperientes e menos enriquecedores do autor. Afinal de contas, a sorte (ou azar?) é que, com Murakami, tanto o bom como o mau são tão, tão fáceis de ler.

  • Classificação: 6/10 (Satisfatório)
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