Título Original: As Intermitências da Morte
Título em Portugal: As Intermitências da Morte
Autor(a): José Saramago
Ano de Publicação: 2005
Edição: Leya, 2013
Colecção: BIS
N.º de Páginas: 240
Encadernação: Capa Mole
Preço: €5,95 (Fnac)

  Classificação: 8/10 (Muito Bom)  

Aliando a sensibilidade à sátira, a contemplação à crítica e o humano ao político, Saramago consegue, numa curta obra, mostrar um pouco de tudo o que mais o define – o que, invariavelmente, passa pelo pessimismo, pela amargura e pela inconformação política e religiosa –, sempre com a segurança de um escritor maduro que sabe exactamente o que está a fazer e que, ao contrário do que o próprio, meio a brincar, dizia por vezes, nasceu certamente para o fazer.

“No dia seguinte ninguém morreu”. É esta a primeira frase e premissa da obra de 2005 de Saramago, o controverso Nobel português, cuja utilização do realismo mágico já não é novidade: em Memorial do Convento, Blimunda consegue ver o interior das pessoas; todo o enredo de Ensaio sobre a Cegueira é baseado numa epidemia de cegueira branca que ameaça o mundo; A Jangada de Pedra narra a história fictícia da separação geográfica da Península Ibérica do resto do continente europeu… os exemplos são muitos. Com atrevida e corajosa originalidade, Saramago utiliza geralmente estes elementos de fantasia como ponte para a mensagem que quer transmitir, traçando simultaneamente com eles a malha de histórias que, pelos conceitos únicos que as constituem, se tornam duplamente inesquecíveis. Digo “duplamente” porque o motivo primário pelo qual nenhum livro de Saramago parece cair em zonas inócuas do ser de quem o lê é, pura e simplesmente, a genialidade surpreendente com que escreve e pensa; o à-vontade confiante que demonstra na utilização tão fácil e natural que faz do estilo fluente e oralizado que inventou e pelo qual é conhecido; a força mental que se espelha na certeza que coloca em cada comentário sarcástico ou satírico: em cada ideia a que dá vida.

Não muito surpreendentemente, As Intermitências da Morte não é uma excepção no leque de histórias duplamente inesquecíveis de Saramago. Como sugerido acima, o conceito deste pequeno romance, tão cativante como transtornante, é a cessação súbita, após uma passagem de ano, das actividades da morte numa pequena monarquia fictícia com dez milhões de habitantes – parecida com Portugal em mais do que apenas os números populacionais, na verdade, mas representativa e satírica, no fundo, de qualquer estado ocidentalizado dos nossos dias. Com a mestria que, como dito acima, o caracteriza, mestria essa baseada tanto numa vastíssima cultura como nos raciocínios e reflexões característicos de uma personalidade extremamente inteligente e humana, Saramago conduz o leitor numa viagem estonteante pelas consequências da premissa apresentada, das mais globais às particulares, prevendo com singular abrangência todo o desenrolar da situação, sempre no tom de humor profundamente sarcástico a que nos habituou. Aliando a sensibilidade à sátira, a contemplação à crítica e o humano ao político, Saramago consegue, numa curta obra, mostrar um pouco de tudo o que mais o define – o que, invariavelmente, passa pelo pessimismo, pela amargura e pela inconformação política e religiosa –, sempre com a segurança de um escritor maduro que sabe exactamente o que está a fazer e que, ao contrário do que o próprio, meio a brincar, dizia por vezes, nasceu certamente para o fazer.

Convém dizer que esta obra se encontra dividida – não formalmente, porque Saramago não gostava de o fazer, mas em temática – em duas partes sequenciais fortemente distintas. A primeira é a mais satírica e politizada, lidando com os aspectos práticos da questão do fim da mortalidade: é nela que Saramago explora, com uma genialidade presente desde o primeiro capítulo, a hipocrisia e demagogia muito semelhantes da Igreja e do governo, a complacência do rei, os interesses de entidades em cuja actividade os acontecimentos da obra têm implicações práticas graves, como os lares de terceira idade, as companhias de seguros e os hospitais, e até o desenvolvimento de organizações mafiosas. Recheada de hilariantes conversas de bastidores entre os diferentes poderes nacionais e dotada de uma clarividência, originalidade e capacidade de previsão singulares, esta é, sem dúvida, a minha metade preferida de “As Intermitências da Morte”, e aquela que escolheria – e escolho –, em qualquer momento, para representar a obra. A segunda parte é um salto do global para o particular, do pragmático para o sentimental, da política para a metafísica, sendo protagonizada pela própria morte personificada e por um violoncelista solitário que a mesma não conseguiu nunca matar. Trata-se de um interessante estudo do amor humano e das suas variadíssimas circunstâncias e consequências, conseguindo tecer reflexões importantes sobre o conceito da morte num plano mais personalizado e contribuindo para a fantástica caracterização da natureza humana que, com Saramago, é sempre um objectivo literário intencional e esplendidamente cumprido – no entanto, e apesar de, inclusive, manter o mesmo nível delicioso de humor negro que a mesma, esta segunda parte não é, na minha opinião, tão significativa, conclusiva e paradigmática como a primeira.

Em conclusão, e embora não seja a minha obra preferida de Saramago, As Intermitências da Morte é um pequeno livro que brilhantemente explora um conceito brilhante, e cuja leitura, do início ao fim, é um verdadeiro deleite, como o são sempre as leituras dos hinos à verdadeira literatura. Dada a sua densa concentração de traços típicos do autor, e considerando o apelo da sua curta extensão e do baixo preço da maioria das edições em que se encontra disponível, diria até que se trata de uma óptima escolha para qualquer pessoa que pretenda iniciar-se em Saramago.

Quando, em 2010, na realidade diferente da do seu livro que é a nossa, Saramago morreu, levou consigo a parte de si que era igual a mim, aquela que parecia ler os meus pensamentos, medos e emoções tão facilmente como escrevia. Saber que nunca poderei conversar frente-a-frente com este mestre da literatura e da vida é um golpe surdo dificilmente descrito e sem semelhante. Resta-me o consolo de obras como esta, que o imortalizam tanto quanto a imortalidade é possível no nosso mundo, e com ele essa parte de mim.

Obrigada, Saramago.

  • Classificação: 8/10 (Muito Bom)
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