Metáforas. A mais perigosa arma do mundo, porque o Amor pode nascer de uma metáfora. Não sou eu quem o diz – eu apenas ofereço a maiúscula inicial ao vulgarizado substantivo que pobremente usamos para designar aquele nível indescritível quer de afecto, quer de sofrimento –, mas Kundera, de cujas palavras não fui mais do que a passiva e mesmerizada receptora, até te conhecer. Há coisas que lemos ou ouvimos e que, por mais que pressintamos o seu potencial, nunca dão à luz conceitos, nunca ganham forma nos nossos corações, porque a vida ainda não nos deu a carne para as rechear, o sal para as chorar, o pó mágico para as ver voar. Por isso, e até o fado se encarregar de nos colocar na mesma estrada que a sua concretização, as frases poéticas não passam de belos espectros a pairar suavemente no eterno ar outonal do pensador imperturbado, como o somos todos até Amar.

No meu humilde caso pessoal, a metáfora de Kundera sobre as metáforas decifrou-se, como disse, quando te conheci. Foi como assistir impossivelmente ao milagre invisível da transformação de uma língua noutra, à distância do meu toque e em directo; foi como o negativo de testemunhar um acidente em câmara lenta – ou talvez não tanto o negativo, já que o Amor tem tanto de acidente como de salvação; foi como ser a simultânea autora e vítima do maior dos truques de magia. Aconteceu numa manhã de chuva, como a maioria das coisas que doem – ou, pelo menos, assim o testemunho duvidoso da memória humana nos faz crer. Essa manhã tivera uma madrugada, e nessa infância do dia derramáramos sobre o mundo uma das nossas piores discussões, daquelas em que o sangue faz confundir amantes com inimigos, paixão com perigo, e todas as garras sedentas de guerra saem à rua no maior espectáculo de instinto conhecido por esta espécie a que estamos limitados e que, ingenuamente, gostamos de considerar tão evoluída. A razia com que mutuamente castrámos a inocência dos nossos sentimentos terminou com a separação física a concretizar a da alma, e, pela última de um qualquer número ordinal de vezes a que perdi a conta, vi-te cruzar firmemente o meu chão; cortar a barreira – também ela metafórica, pois tudo são metáforas, um campo de minas a inundar a vida por que passamos a correr – do meu vão de entrada, que aqui tem um nome tão amargamente irónico; descer a passo rápido o caracol das minhas escadas. Num egoísmo desmedido que nem te permitia sabê-lo, levavas contigo o meu coração, e, com cada metro do teu avanço, eu ouvia o seu bater desesperado cada vez mais ténue, como o choro de uma criança separada da mãe num mundo assassinado por incêndios, até toda a sua frágil estrutura quebrar com o estrondo final da porta – um trovão de fim de mundo, a avalanche para terminar o reino dos vivos, o fechar do caixão.

Lembro-me, como se de olhos alheios se tratasse, da minha figura aninhada à entrada, agarrada com cada átomo de mim ao último espaço que tinha sido teu e meu, incapaz de o soltar para incorrer no risco de te procurar em território privado; incapaz de saltar o arame farpado por medo de sangrar. Recordo os soluços quase fantasmagóricos com que, naquela madrugada cinzenta, fiz tremer a velha casa, sem me importar com os outros seres que nela respiravam: porque eles tinham morrido com o fechar daquela porta, como todos os outros neste mundo. Ainda consigo provar as lágrimas, a pele, a dor feita líquido vil na minha boca a envenenar-me, a impedir-me de agir.

Não sei quanto tempo estive assim, deitada como um velho brinquedo abandonado naquele chão que já não segurava nada, capaz de jurar que a vida terminara. Demais, certamente. Demais. Mas a força vital sempre triunfa enquanto o sangue corre, e, num choque súbito digno das maiores epifanias da grande literatura universal, aquele lugar, com toda a sua segurança dolorosa, tornou-se ingrato para mim, estrangeiro. Soube-o como pura evidência: não podia estar mais um segundo ali. Levantei-me de um ápice e, com uma agilidade que não me conhecia e um sentimento cego à flor da pele, despi-me do orgulho ferido e corri porta fora, fazendo aquele que esperava que fosse o mesmo caminho por ti traçado uma quantidade indeterminada de minutos atrás; cronometrando agora o tempo pelo marca-passo surdo e ávido do que sobrara de ti, o fantasma de uma bomba que ameaçava abrir à força a minha caixa torácica; rezando a todos os deuses ateus para que não fosse tarde demais.

Instinto, conhecimento profundo ou pura lógica: os três são comummente confundidos, conforme a necessidade poética ou ausência dela. A verdade é que, por um qualquer desses desígnios, o acelerar dos meus passos na calçada fria e triste daquela manhã chuvosa levou-me precisamente a ti, milagrosamente sem escorregar ou tropeçar – talvez afinal a reza; talvez afinal a fé. Estavas sentado num velhíssimo banco na estação rodoviária, o único lugar ocupado em dezenas, na profunda melancolia cabisbaixa e resignada que imagino que se tenha espelhado no olhar dos últimos sobreviventes das espécies extintas. Os teus ombros soterrados não denunciavam já qualquer da altivez com que traçaras o teu destino para longe de mim, passando-me por cima. Eras agonia silenciosa escrita sobre a pauta da minha ausência; uma ave ferida que, pensando agora melhor – pois o Amor é traficante de segundos pensamentos e droga de culpa –, eu escorraçara pela minha própria mão; a última da tua espécie. E foi aí que a magia aconteceu, com Kundera a anuir no pano de fundo, ao mesmo tempo abençoando e amaldiçoando com a sua inquebrável dureza toda aquela cena, como se de uma tragédia necessária se tratasse: eras uma ave ferida, a última da tua espécie; um par de ombros descaídos sozinhos num mundo cinzento. Como poderia alguma vez deixar-te?

Anúncios