Título Original: Biografia Involuntária dos Amantes
Título em Portugal: Biografia Involuntária dos Amantes
Autor(a): João Tordo
Ano de Publicação: 2014
Edição: Objectiva, 2014
N.º de Páginas: 424
Encadernação: Capa Mole
Preço: €16,50 (Fnac)

  Classificação: 8/10 (Muito Bom)  

Há em todas estas personagens uma enorme e avassaladora sensação de desperdício de tudo o que poderia ser e nunca será; de tempo roubado, como areia que escapa por entre os dedos sem que o possamos evitar; de tragédia e melancolia que nem sequer são trágicas ou melancólicas, são apenas a verdade imutável do que são, e que, por isso mesmo, se tornam muito mais assustadoras e universais. Este é um mundo de santos caídos, em que o bem e o mal dançam juntos até se fundirem num só, e em que cada crueldade e cada gentileza têm o seu reverso da medalha: tal como a inocência e a culpa, aqui sobrepostas sem o mais ténue limite.

Para variar, hoje começo esta crítica a partir do fim: perto do seu desfecho, o narrador do romance aqui em análise decide ler um livro escrito por Jaime, uma das outras personagens e um jovem autor, apesar do seu confesso medo de que se trate da obra de um escritor moderno, recheada de pretensiosimo e jogos metaliterários, como há tantas. No entanto, após uma análise rápida das páginas, é brindado com o conforto de perceber que, na realidade, Jaime é um bom velho “romancista clássico”, pelo que inicia sossegado a empreitada. Ao ler este excerto, ri bastante comigo própria, já que esta é uma perfeita descrição da hesitação que senti ao colocar a hipótese de ler Tordo, e do profundo alívio que tomou conta de mim quando me dei conta de que, afinal, tinha feito a escolha certa – alívio que, como num jogo metaliterário, ler este excerto reforçou ainda mais: foi aí, afinal, que tive a confirmação de que Tordo e eu jogamos na mesma equipa.

Devo justificar-me. Por mais liberais que nos consideremos, a experiência de vida acaba sempre por dispor alguns preconceitos na tábua rasa que nos esforçamos por manter; no meu caso, e no que à literatura diz respeito, as fobias prendem-se com autores contemporâneos em geral, e, até certo ponto, com autores jovens (e sei que contra mim falo ao dizê-lo): não só, em ambos os casos, pelo tal pretensiosismo e ausência de real profundidade que comummente acompanham os trabalhos inseridos nas ditas categorias, como pelo facto de que, hoje em dia, não publicar um livro começa a parecer mais difícil do que fazê-lo, sendo que Portugal não é excepção geográfica a esse fenómeno global, e tal facilitismo dá azo a uma inevitável redução de qualidade na obra impressa – os exemplos que poderiam ilustrar esta constatação são vastíssimos, e não me parece relevante listá-los; é mais fácil ir a uma livraria e olhar para quase tudo. Considero-me, assim, relativamente elitista no que toca ao que leio, e tendo a preferir ocupar o meu tempo, já de si limitado, com apostas seguras: romancistas, como o coloca o próprio Tordo, ditos “clássicos” – e note-se que os há em qualquer época, apenas exige maior perícia descobri-los no universo literário actual.

Foi, então, contra tudo o que costumo fazer que, numa ida à Fnac na busca frustrada de uma outra obra, peguei na última de Tordo e a levei para casa. Porque o fiz? Bom, em primeiro lugar, precisamente por ser algo que, geralmente, não faço: senti que talvez fosse hora de expandir um pouco os meus horizontes dentro da literatura portuguesa corrente. Em segundo lugar, e com igual importância, fiquei enfeitiçada pelo nome da obra e pela estética da capa do exemplar – todo o peso monocromático da fotografia crua e íntima de uma mulher em abandono, subtilmente quebrado apenas pelo amarelo velho das barras sob o texto. Sou uma pessoa extremamente sensível à beleza de todas as coisas, e, por causa disso, razões como esta têm um forte efeito em mim. Ajudou, claro está, a obra encontrar-se sob a chancela do Prémio José Saramago, galardão homónimo do meu principal escritor de referência, e ser da autoria de João Tordo, por cuja figura sinto uma simpatia natural. Tal como o protagonista do livro que viria a ler, dei uma olhada rápida pelas primeiras páginas e de imediato decidi que aquele não se tratava de um pseudo-escritor qualquer do século XXI, mas de um homem que, apesar de jovem, amadurecera cedo (pelo menos, nos dois sentidos que me interessavam, o literário e o anímico), e tinha melancolia para dar e vender.

Ora, poucas coisas encontram mais facilmente lar em mim do que a melancolia.

Li Biografia Literária dos Amantes numa espécie de ímpeto febril – quero com isto dizer que, apesar de o ter iniciado num período bastante ocupado da minha vida, terminei as suas 424 páginas em apenas cinco ou seis dias –, e gostei muito de o fazer. Não sei se o que me prendeu mais foi a escrita fácil e muito bem conseguida de Tordo (é raro encontrar alguém neste país que pontue tão bem, possua um vocabulário tão variado ou saiba que se diz “ter entregado” e não “ter entregue”), que tornou a experiência de o ler num verdadeiro deleite técnico para a amante da língua portuguesa que sou, ou a intensidade emocional da sua história; a verdade é que o casamento das duas coisas, forma e conteúdo, foi, em mim, muito feliz.

Esta sétima obra de João Tordo, que a assina com apenas trinta e oito anos, é uma reunião de almas penadas; um hino à melancolia, ao terror existencial, ao carrasco que encontramos tanto em nós próprios como no tempo, e tanto mais num quanto no outro. Neste festival de sofrimento, mentira e amargura, a única redenção possível é encontrada na aceitação final do próprio e do outro, na amizade sob todas as formas, e no significado guardado numa certa constatação do narrador: “regando flores” e, assim, estendendo o amor, poderemos, pelo menos, partir um dia com o coração a transbordar. Mas passemos, então, aos traços gerais do enredo. Biografia Involuntária dos Amantes conta a história de Saldaña Paris, um homem peculiar – de uma forma muito Woody Allen – que dá por si refém de um passado cujos horrores afectivos e fantasmas por resolver castram qualquer possibilidade de futuro. Na atitude parcialmente altruísta de o “salvar”, mas também na esperança de, no processo, resolver algumas questões da sua própria existência estagnada, o narrador (nunca nomeado), um solitário professor universitário – divorciado e pai de uma adolescente, com quem mantém uma relação difícil e distante –, decide investigar a fundo todo o percurso de Saldaña Paris, com quem estabelecera rapidamente uma relação de companheirismo e profundo entendimento, pensando que, fornecendo-lhe toda a verdade sobre a vida que passara, o libertaria para a que ainda poderia ter. Isto passa inevitavelmente pela leitura de um manuscrito deixado por Teresa, a recentemente falecida e muito problemática ex-mulher de Saldaña Paris, a quem o mesmo dedicara toda a energia vital que agora lhe faltava, e pelo subsequente desenrolar do novelo da história de vida da mesma, tão obscura quanto escura, no sentido de compreender as causas que haviam conduzido aos eventos dramáticos que viriam manchar tantas existências individuais. Este processo “detectivesco” leva o narrador a várias pessoas e países diferentes e obriga Tordo não só a abordar, na sua técnica, variadíssimos meios de comunicação, desde cartas a telefonemas, como a assumir, a certo ponto, uma voz feminina, quando nos apresenta Teresa na primeira pessoa. Um ponto extremamente positivo a seu favor é que, surpreendentemente, Tordo supera esta última prova com excelência, sendo o manuscrito de Teresa, inclusive, a minha parte preferida de todo o romance, e uma que gostaria francamente que tivesse sido mais longa: como já mencionei na crítica a Madame Bovary, não é tão comum como seria desejável um homem saber colocar-se na pele de uma personagem feminina, e Tordo fá-lo com uma verosimilhança à qual não tenho qualquer reparo a colocar.

Demorei algum tempo a perceber que este romance me perturbava, mas, a certa altura, a sensação, de tão forte, tornou-se impossível de ignorar, ao ponto de influenciar verdadeiramente o meu humor e linha de pensamento. Também isto é, na minha crítica pessoal, um ponto positivo. Tudo o que me faz sentir alguma coisa é louvável a meus olhos, nem que apenas por isso mesmo, e Biografia Involuntária dos Amantes, com as suas tiradas filosóficas ao virar de cada triste esquina – felizmente, vazias de pretensiosismo e cheias de significado –, deixou-me extremamente desconfortável até ao fim. Com quê? Com tudo. Com a existência humana em geral, cujo sentido, se sobre isso pensarmos o tempo suficiente, nos escapa completamente; com o romantismo de que revesti e revisto a minha vida e a minha arte e que, no fundo, não passa de mais uma mentira doce com que tantos tentamos escapar à verdade mais alta da morte, que tudo ensombra; com a inutilidade da própria literatura e da reflexão que induz – como esta que lêem neste preciso momento –, trabalhados embustes para o nada aos quais dedicamos o nosso tempo por medo do vazio; com a verdade, que, no fundo, não existe, e, a existir, não é sequer a escolha certa invariável que gostamos de a imaginar – como o narrador, na sua derradeira queda do pedestal, acaba por compreender, quando decide que, afinal, apenas a mentira poderá salvar o seu amigo, ao contrário do que tão fortemente acreditara (talvez a ignorância sempre seja uma bênção). Tordo não é um optimista, e isso é óbvio do início ao fim da obra, desde a morte do javali que serve de pretexto para o arranque da narrativa aos mergulhos mais profundos no passado sombrio de Teresa. Há em todas estas personagens uma enorme e avassaladora sensação de desperdício de tudo o que poderia ser e nunca será; de tempo roubado, como areia que escapa por entre os dedos sem que o possamos evitar; de tragédia e melancolia que nem sequer são trágicas ou melancólicas, são apenas a verdade imutável do que são, e que, por isso mesmo, se tornam muito mais assustadoras e universais. Este é um mundo de santos caídos, em que o bem e o mal dançam juntos até se fundirem num só, e em que cada crueldade e cada gentileza têm o seu reverso da medalha: tal como a inocência e a culpa, aqui sobrepostas sem o mais ténue limite.

Esta não é uma obra sem defeitos. O principal a ocorrer-me durante a leitura foi que toda a sua estrutura parece um pouco desintegrada; Tordo pega em demasiados fios, demasiadas personagens, demasiadas oportunidades, e, na fuga constante do narrador de um lado para o outro, toca em todas apenas pela rama. Esta sensação de arestas mal limadas pode, até, tanto quanto sei, ser propositada, dado que uma das mensagens do livro me parece ser a das limitações que sempre temos e teremos no conhecimento do outro, mas, enquanto leitora, provocou-me uma sensação de insatisfação e confusão que talvez fosse evitável. Isto leva-me a um outro defeito, que, porventura, nem merece ser apelidado de tal, mas que também interferiu com a minha experiência da obra: a indefinição de objectivos. Biografia Involuntária dos Amantes cria uma amálgama tal de dilemas existenciais que, a certo ponto, nos questionamos acerca de qual será a principal mensagem que o autor pretende transmitir – ou se o destaque estará destinado a alguma em particular, sequer. A verdade é que, no fundo, as mensagens a encontrar são tantas que, se não formos parando para reflectir, a absorção de umas sobrepõe-se à das outras, e arriscamo-nos a acabar por ficar sem o fruto de nenhuma: o que seria uma enorme pena, porque este é um livro que merece realmente ser bem saboreado e digerido, por todas as razões do mundo.

Resta dizer, assim, que este não é um livro de picos emocionais – apesar do pequeno travo a thriller que, de quando em quando, nos traz aquele familiar arrepio na espinha, ao nos depararmos com desenvolvimentos especialmente macabros –, mas antes de um crescendo de perturbação e melancolia que se vai construindo solidamente a pouco e pouco, sendo estável tanto na forma como nos toca como no prazer que a sua leitura pode proporcionar a qualquer apreciador de literatura e, em particular, desta lindíssima língua que temos a sorte de falar em Portugal, e que Tordo – afinal um romancista clássico, ou quase – maneja tão bem. Uma empreitada inovadora da qual não me arrependo minimamente, e da qual Tordo também não tem qualquer motivo para se arrepender.

  • Classificação: 8/10 (Muito Bom)
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