Título Original: スプートニクの恋人 (Supūtoniku no Koibito)
Título em Portugal: Sputnik, Meu Amor
Autor(a): Haruki Murakami
Ano de Publicação: 1999
Edição: Casa das Letras, 2013
Colecção: Ficção Estrangeira
N.º de Páginas: 236
Encadernação: Capa Mole
Preço: €14,90 (Fnac)

  Classificação: 6/10 (Satisfatório)  

[…] na verdade, algumas das minhas coisas preferidas de Murakami são contos que primam, precisamente, pelo mistério, pela metáfora, pelo onírico, pelos segundos significados. Sputnik, Meu Amor, apesar de possuir um trio de personagens bastante cativante e uma série de interessantíssimas analogias com impacto filosófico e até social, não me parece, simplesmente, um mistério, uma metáfora, uma experiência onírica ou um labirinto de segundos significados muito bem conseguido.

Murakami começa a tornar-se uma presença tão habitual nas minhas críticas que, um dia destes, quem visita este blog apenas ao de leve ainda se convencerá de que se trata do meu autor favorito. Não é esse o caso, de todo; o que se passa é que o início da minha descoberta de Murakami coincidiu com a abertura de nightbird., e o mesmo rapidamente se tornou num escritor a cuja obra recorro sempre que preciso de algo mais leve para limpar o palato de outras coisas que vou lendo, ou mesmo do caos da vida real. Assim, a preponderância, neste website, de críticas relativas aos trabalhos do popular autor japonês prende-se apenas com questões logísticas e de coincidência – na verdade, hesitei em escrever esta, dado que Sputnik, Meu Amor não me trouxe muito de novo no que à percepção do estilo técnico e temático de Murakami diz respeito; li, inclusive, o comentário de uma leitora no site Goodreads com que, por mais que me custe, não pude deixar de concordar: “[Murakami] não se cansa de escrever o mesmo livro uma e outra vez?”. No entanto, a minha personalidade possui alguns traços de perturbação obsessivo-compulsiva, que não me deixaram ver passar a oportunidade em branco; além disso, após pensar um pouco, compreendi que talvez haja coisas a constatar sobre este livro que ainda não disse acerca de qualquer outro: ou, pelo menos, com tanta intensidade.

Resolvi ler Sputnik, Meu Amor porque, quando o abri numa loja e quase distraidamente passei os olhos pelas suas primeiras páginas, fiquei extremamente cativada pela controvérsia da premissa: uma rapariga desmazelada e independente de vinte e dois anos que, ao fim de toda uma vida sem conhecer a paixão, cai num amor profundo por uma pessoa que, só por acaso, é dezasseis anos mais velha, casada, e uma mulher. Murakami descreve este sentimento de Sumire por Miu – principalmente, o seu início – de uma forma muito bonita, e toda a abertura mental necessariamente subjacente ao enredo que se seguiria fez-me sentir que seria algo que gostaria de ler. A restante obra foca-se, então, no triângulo condenado formado pelo narrador, eternamente apaixonado por Sumire, esta última, eternamente apaixonada por Miu, e Miu, eternamente sem paixão. Quando, em plena viagem pela Europa com Miu, Sumire desaparece misteriosamente, a vida dos que ficam altera-se para sempre. Este é um ensaio melancólico sobre desejo reprimido, perdas irreversíveis e o inevitável desperdício de vida a que estes levam, um ensaio que cedo embarca num crescendo de irrealidade e descontrolo para terminar num final de potencial tragédia absoluta, com a familiar sensação de thriller tantas vezes transmitida por Murakami.

Sputnik, Meu Amor é uma típica obra de Murakami, e isso descreve-o quase na sua totalidade. Como todos os trabalhos do autor, é muito facilmente devorável, com uma escrita extremamente fluida e linguagem simples; além disso, a presença de componentes fantásticos e oníricos, também elementos da marca, é pervasiva em todo o livro. O que o distingue da restante bibliografia de Murakami que conheço (que já começa a ser algo extensa), e que, ao mesmo tempo, me distancia um pouco dele – não o apreciei tanto como os seus outros trabalhos que já li –, relaciona-se com a última característica que referi acima, e é o facto de Sputnik, Meu Amor ser uma história que vive mais da fantasia e do desconhecido do que qualquer outra. Aqui, a fantasia abraça completamente todo o enredo; serve-lhe simultaneamente de útero e de finalidade; é mais do que o meio para um fim, assumindo-se, em grande parte, como o fim em si próprio. Isto faz com que este seja um romance sobre o qual é muito difícil pensar com qualquer nível de lógica, dado que nem a metáfora nem a realidade concreta bastam, por si só, para o explicar; a chegada às mensagens escondidas sob a superfície de espelhos que o constitui depende de um finíssimo equilíbrio entre o real e o imaginado. Quero com isto dizer que, embora os finais em aberto e passíveis de múltiplas interpretações já sejam habituais em Murakami, em Sputnik, Meu Amor, chegar a qualquer interpretação exige a aceitação de alguns elementos específicos como aquilo que são, e de outros como jogos literários e figuras estilísticas – e nem sempre é simples perceber quais são quais.

É possível, claro, como sempre foi e sempre será, aceitar a narrativa tal como ela é e usufruir da beleza melancólica e perturbadora das imagens nela formadas sem as questionar por aí além. No entanto, esse não é o tipo de leitora que sou; não me basta saber que é possível que exista um significado oculto: tenho de chegar até ele. Se, afinal de contas, ele nunca tiver existido, toda a obra em causa ficará rotulada em mim, por mais que eu não o queira, como sendo uma farsa. Sou e sempre fui assim em relação a todos os tipos de arte – é-me francamente difícil não pensar sobre tudo o que vejo e leio, principalmente se o meio de expressão em causa se encontrar recheado de placas a indicar uma mensagem mais profunda –, e com Sputnik, Meu Amor a reflexão foi-me extremamente difícil, por, como a mais arriscada e duvidosa arte abstracta, exigir demasiada especulação, e nela perder grande parte da solidez necessária para ganhar o meu respeito. Mesmo as maiores metáforas precisam de um ponto de partida e de um fim, e, nesta obra, essas referências não são fáceis de encontrar. O que poderá ter sido real; o que não foi? O que significa o estranhíssimo episódio de aparente desintegração experimentado pelo narrador na Grécia, após o desaparecimento de Sumire? É equivalente a esse mesmo desaparecimento, e ao fenómeno experimentado há catorze anos por Miu? Quais são as verdadeiras mensagens da obra: a fragmentação da alma? A dualidade do ser? A relação entre tudo isto e as pressões sociais, perante as quais nos vemos obrigados a ser duas, três ou mais pessoas diferentes? A forma como cada decisão que tomamos contra o nosso instinto e contra a nossa vontade nos rouba um pouco da nossa identidade – como a cor do nosso cabelo ou o fogo da nossa paixão? Qual é o significado do capítulo extremamente aleatório sobre o filho da amante do narrador perto do final – será que pretende mostrar que o facto de a criança ver revelado, partilhado, aceite e, finalmente, resolvido na sua cabeça, logo desde cedo, o ímpeto de roubar, gera nela um melhor prognóstico de vida do que o dos protagonistas, que viveram demasiado tempo em desejo oprimido e acabaram por “desaparecer” ou se desintegrar, de uma forma ou de outra? Trata-se, então, de um hino à abertura, à partilha do fardo, à redenção através da aceitação do outro? E o que é “ir para o mundo dos sonhos” – literalmente sonhar? Desaparecer? Mas desaparecer como, literal ou metaforicamente? Será morrer? O final é, então, o delírio de um homem que começa a desaparecer, um sonho ou um suicídio?

Creio que, no fundo, Murakami pretendia chegar a tudo isto: a questão é que podia tê-lo feito de outra forma, com igual mistério e sem prejuízo para a credibilidade da obra. Após tê-lo discutido bastante a fundo com outra pessoa, e graças às teorias e interpretações mutuamente engendradas que disso resultaram, confesso que consegui valorizar um pouco mais o livro, assim como estabelecer melhor o que, para mim, são as suas maiores mensagens – e reconheço-lhes o inegável valor. No entanto, este não deixa de me parecer um cocktail demasiado forte de dissimulação, mistério gratuito e algum pretensiosismo. Os amantes mais cegos – ou mais fiéis, nos casos em que há diferença entre as duas coisas – do autor poderão alegar que, simplesmente, não estou a aceitar Murakami como ele é; que a sua grandeza reside precisamente em toda esta ambiguidade perturbadora, independentemente do que dela possa resultar ou não; que a complexidade que tento colar-lhe à força arruina a simplicidade que é a força vital de toda a sua obra. Ver-me-ia obrigada a discordar, já que, na verdade, algumas das minhas coisas preferidas de Murakami são contos que primam, precisamente, pelo mistério, pela metáfora, pelo onírico, pelos segundos significados. Sputnik, Meu Amor, apesar de possuir um trio de personagens bastante cativante e uma série de interessantíssimas analogias com impacto filosófico e até social, não me parece, simplesmente, um mistério, uma metáfora, uma experiência onírica ou um labirinto de segundos significados muito bem conseguido.

Não obstante tudo o que afirmei acima, Sputnik, Meu Amor tem em si, ironicamente, algumas das minhas frases preferidas de Murakami – frases que anotei para a posteridade, como sempre faço quando encontro excertos literários que valem o mundo por si só. Um exemplo: “Porque será que estamos condenados a ser assim tão solitários? Qual a razão de tudo isto? Há tanta, tanta gente neste mundo, todos à espera de qualquer coisa uns dos outros, e, contudo, todos irremediavelmente afastados. Porquê? Continuará a Terra a girar unicamente para alimentar a solidão dos homens?”. Isto, e as sempre redentoras características da fluidez e beleza simples do estilo de Murakami, tornam este num livro que, apesar de tudo, foi uma experiência interessante, sendo que, para aproveitamento máximo do seu potencial, sugiro fortemente que todos os leitores discutam o enredo com outra pessoa – de preferência, alguém com uma veia de Sherlock Holmes ou Poirot – após o terminarem. Ainda assim, não seria, de todo, a minha primeira recomendação para alguém com vista a iniciar-se no autor, nem o vejo como uma prioridade para os que já o fizeram.

  • Classificação: 6/10 (Satifatório)
Anúncios