Depois da morte do meu pai, pouco recordo da minha mãe além do silêncio: o silêncio irrequieto do deambular pela casa vazia; o silêncio parado dos olhos envidraçados, como que irreversivelmente virados para dentro; o silêncio literal dos lábios a selar todos os outros numa carta fechada. A sua figura etérea, passando como uma corrente de ar da sala para o jardim e de novo para dentro, tornou-se numa assombração muito maior do que a do homem cuja perda a causara.

O negro nas entranhas da minha mãe espelhava-se por fora, vendo-se cortado apenas por uma madeixa de cabelo branco que lhe caía sobre o olhar vazio: uma ausência teimosa de cor que se impusera de um dia para o outro e que se recusara a alastrar, como se todas as forças do mundo tivessem decidido deixar de fazer sentido no mesmo momento – aquele em que, vindo da bola, com um sorriso provavelmente ainda no rosto, a pensar nos três pontos, o meu pai desfizera o seu corpo contra um camião, levando consigo o que estava dentro dos nossos.

Por vezes, julgando-me ausente, a minha mãe deixava-se debruçar sobre os gatos que enchiam agora o jardim abandonado, roçando-se-lhe nas pernas e trocando sons por comida que ela lhes trazia em inesperadas repetições, enquanto o seu próprio corpo definhava. Talvez os meus sentidos me tenham enganado, mas, numa dessas instâncias, quase pude jurar que a ouvi falar – balbuciar algo para os pequenos animais. Um minuto sem contacto visual, e desaparecera sem deixar rasto. Isso era costume – não a reencontrar dentro de casa não era. E foi assim que vi a minha mãe pela última vez.

No aniversário da morte do meu pai, voltei à casa, agora apropriadamente uma ruína. Não sei com quantos passos já desbravara o jardim quando senti inexplicavelmente que algo me seguia, como um sopro. Virei-me, com um arrepio desagradável que o clima de Agosto não justificava. Parado, com uma presença muito maior do que o seu tamanho, um gato preto olhava-me fixamente de volta. Tinha uma única mancha branca sobre o olho, e não fazia um ruído.

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