Título Original: En biodlares död
Título em Portugal: A Morte de um Apicultor
Autor(a): Lars Gustafsson
Ano de Publicação: 1978
Edição: New Directions, 1981
N.º de Páginas: 163
Encadernação: Capa Mole
Preço: €10,90 (Book Depository)

  Classificação: 9/10 (Excelente)  

Talvez surpreendentemente, dada a premissa tão alargada que assume, The Death of a Beekeeper não é pretensioso, barato ou vazio; pelo contrário: enquanto curtíssima obra, vale muito mais do que o seu peso, pois consegue, de forma simples e acessível mas profundamente sólida e palpável, levar o leitor numa viagem firme e crescente de imaginação, emoção e valiosa introspecção.

Se há literatura na Europa que desconheço completamente, é a nórdica. Acresce à falta de popularidade dos autores escandinavos por terras latinas o facto de, a nível pessoal, essa ser uma região geográfica que pouco ou nada me diz – pelo que, se esta obra peculiar do poeta, filósofo e romancista sueco Lars Gustafsson não me tivesse sido directamente apresentada e recomendada, confesso que, provavelmente, nunca me teria sequer cruzado com ela: e (mais) uma pérola estaria para sempre perdida para mim.

The Death of a Beekeeper, traduzido para o português em 2001, no contexto da já extinta colecção Pequenos Prazeres da ASA (encontrando-se apenas, portanto, em alfarrabistas e lojas do género), sob o título literal “A Morte de um Apicultor”, é o relato na primeira pessoa de um professor de cerca de quarenta anos, reformado precocemente e a viver uma existência isolada enquanto apicultor no seio da natureza selvagem dos lagos suecos, que, num Inverno, descobre que provavelmente tem cancro terminal: digo “provavelmente” porque Weasel – alcunha do protagonista – nunca abre a carta do hospital, recusando-se a confrontar a verdade escrita; ao invés disso, escolhe gerir sozinho a situação, independentemente da sua evolução e resolução. Este relato concretiza-se no formato de diário, sendo para isso usados como “fontes” três cadernos seus de apontamentos distintos, cada um com o seu tipo de registo próprio: naturalmente, todos possuem entradas autobiográficas, mas o “yellow notebook” é constituído também por listas e anotações dizendo respeito, por exemplo, a despesas da casa; no “blue notebook” existem pequenos contos produzidos pelo próprio Weasel quando investido na sua veia de escritor; e, por fim, o “damaged notebook” é uma estranha e assimétrica mistura de números de telefone e apontamentos curtos e de grande intensidade relativos, principalmente, ao curso da doença.

Tudo isto é explicado nas primeiras páginas do livro: e, sendo completamente sincera, este não foi um início que me surgisse como particularmente apelativo. Após a leitura de apenas duas ou três páginas, as minhas expectativas não eram altas: o formato e estrutura escolhidos pareciam-me confusos e pretensiosos; a escrita mostrava-se, simultaneamente, de uma frieza exótica – talvez devido ao choque cultural – e de uma simplicidade algo exagerada, como se um aluno de secundário a assinasse; a ambiência geral do enredo ameaçava-se tão cinzenta e monótona quanto a capa física da obra. Assim, preparei-me para um frete: pelo menos, dado o reduzido número de páginas, seria curto.

Não podia ter estado mais enganada. Aquilo que começara por parecer um episódio parado e aborrecido da National Geographic tornou-se muito rapidamente numa montanha-russa extremamente fluída de reflexões filosóficas sobre a vida e a morte; o Homem e o amor; a memória e a distância. Sem darmos por isso, começamos a mergulhar mais e mais na mente deste homem que, também a pouco e pouco, percebe que vai morrer: vivemos o seu dia-a-dia, a sua dor física, o definhar do seu corpo; somos levados à sua infância, aos inevitáveis arrependimentos e às pazes consigo próprio; lemos as suas pequenas histórias, que vão desde contos de terror para crianças à exploração de situações hipotéticas de teor fortemente distópico e metafórico (numa delas, por exemplo, Weasel reflecte sobre o que aconteceria se Deus acordasse e principiasse, finalmente, a aceder às preces de todos os seres humanos; noutra, imagina um mundo em que não existissem conceitos e símbolos mas apenas o concreto, e em que, portanto, só a verdade fosse possível) – ficando no palato, nestes últimos casos, um travo muito forte a Jorge Luis Borges; somos os confidentes e fiéis depositários das suas belas e tristes reflexões sobre a solidão, o isolamento, a distância inultrapassável entre os seres humanos, as raízes do amor e da entrega e o quão difícil é fazê-las vingar – enfim, toda a natureza do que é ser pessoa, e a inevitabilidade disso (“é impossível escapar à vida”).

O formato de diário desregrado, de que comecei por desconfiar, permite, na verdade, uma enorme e refrescante liberdade de expressão, para o escritor, e de absorção, para o leitor: a amálgama resultante de pensamentos, memórias, histórias, anotações mundanas e narrações diárias é surpreendentemente agradável de ler, proporcionando uma variação que torna a experiência do livro tão leve e aliciante que não conseguimos pousá-lo, por querermos sempre saber o que vem a seguir, quer a nível de estrutura, quer a nível de enredo propriamente dito (afinal de contas, um homem está a morrer; no meio de tudo isto, o inexorável processo vai tendo lugar): no meu caso pessoal, a leitura deu-se em duas rapidíssimas assentadas, e apenas porque, entre elas, tive a necessidade fisiológica de dormir.

Talvez surpreendentemente, dada a premissa tão alargada que assume, The Death of a Beekeeper não é pretensioso, barato ou vazio; pelo contrário: enquanto curtíssima obra, vale muito mais do que o seu peso, pois consegue, de forma simples e acessível mas profundamente sólida e palpável, levar o leitor numa viagem firme e crescente de imaginação, emoção e valiosa introspecção. Os seus trechos filosóficos não são apenas um punhado de típicos lugares-comuns, mas sim pensamentos lúcidos com recheio e fundamento que encontram facilmente lugar em qualquer um de nós – embora nenhum de nós se tenha lembrado de os escrever.

Se há critério em que posso confiar para avaliar a minha experiência de uma obra, é a quantidade de excertos que dela retiro e guardo para a posteridade: e, neste caso, foram francamente muitos, e de qualidade equiparável entre si. Escolher um para colocar aqui seria, portanto, extremamente difícil; assim, deixo-vos apenas com um par de frases inúmeras vezes repetidas ao longo do texto, e que sublinham o tom de esperança e amor à vida – e da esperança e do amor como parte inevitável da vida – de que, apesar do tema, toda esta lindíssima obra se recobre: “We begin again. We never give up.” (Em português: “Começamos de novo. Nunca desistimos.”)

Uma experiência deliciosa, marcante e extremamente original – e a desculpa perfeita para os menos familiarizados com a língua inglesa começarem a frequentar alfarrabistas.

  • Classificação: 9/10 (Excelente)
Anúncios