Título Original: Le città invisibili
Título em Portugal: As Cidades Invisíveis
Autor(a): Italo Calvino
Ano de Publicação: 1972
Edição: Printer Industria Gráfica Newco S.L., 2009
Colecção: Biblioteca Sábado
N.º de Páginas: 180
Encadernação: Capa Mole
Preço: N/A (Comprado a €3 na Fyodor Books)

  Classificação: 10/10 (Extraordinário)  

De facto, estas “cidades invisíveis” representam, na verdade, cidades reais, ou pessoas reais, ou conceitos reais – o nosso mundo, nós, as nossas ideias e as nossas relações: e é aqui que, pessoalmente, encontro o maior valor desta magnífica obra-prima de Calvino, simultaneamente tão clara e profunda como um exótico lago invernal que escondesse mil universos sob as belas águas paradas.

Italo Calvino, italiano nascido em Cuba, conseguiu algo a que todos os escritores aspiram, e que muito poucos, mesmo dentro do grupo dos privilegiados, conquistam: ser inconfundível. Não é fácil definir o trabalho deste homem, ou a fresca revolução que trouxe à literatura: talvez a melhor forma de começar seja dizer que o seu processo criativo, quase avassalador de tão abundante, parece fundar-se no prazer puro e simples de inventar; gerar; imaginar. Calvino, apelidado por muitos de “fabulista moderno”, é, acima de tudo, um criador: um contador de estranhas histórias, um alegorista, um explorador de hipóteses mirabolantes. Se tivesse vivido séculos antes, seria fácil imaginá-lo a partir em busca de novos mundos numa qualquer expedição marítima de mistério e espanto; nascido em 1923, e já com muito pouco para descobrir nesta nossa geografia mundial, dedicou-se antes a inventar os mundos que poderiam ser descobertos: e a torná-los num espelho universal deste, onde, se procurarmos bem, podemos encontrar mil verdades sobre nós próprios reflectidas entre as nuances de luz.

Apesar do sabor único que recobre toda a sua obra, convém traçar um paralelismo entre Calvino e o seu ligeiro predecessor/contemporâneo Jorge Luis Borges, considerado principal precursor do realismo mágico, e também ele um inventor por excelência. O verdadeiro valor explicativo de qualquer comparação encontra-se, naturalmente, na enumeração das diferenças: e, portanto, importa dizer que onde Borges é um pensador de curtos mas pesados tiros hipotéticos com concentradíssimo valor filosófico, Calvino funciona num registo mais relaxado, numa imaginação mais fabulada e infantil; grande apreciador da leveza e da clareza na arte (como viria a deixar escrito nas suas incompletas Seis Propostas Para o Novo Milénio), as suas histórias vivem de uma ligeireza que faz jus às suas convicções. Se ambos os escritores são gigantes da criação pela criação, encriptando ao mesmo tempo, nas suas múltiplas metáforas, mensagens riquíssimas para o leitor mais atento, Calvino investe numa modalidade menos “carregada” do método: é muito mais fácil apanhar uma dor de cabeça lendo a densa erudição de Borges do que as brincadeiras referenciais e metaliterárias de Calvino, apesar de este último possuir na sua bibliografia trabalhos muito mais longos do que o primeiro, que nunca assinou um romance. (Para terminar esta nota introdutória, quero apenas deixar claro que nada nela pretende, de todo, servir de ataque a Borges, autor excepcional que admiro muitíssimo, e também ele de individualidade reconhecível em qualquer canto do mundo. Na verdade, o que une estes escritores é mais do que o que os separa; em particular, ambos são, definitivamente, referências de culto, com requisitos mínimos de sensibilidade literária e cultura para poderem ser verdadeiramente apreciados em todo o alcance da sua mensagem.)

As Cidades Invisíveis, publicado em 1972, é uma obra perfeitamente representativa de tudo o que define Calvino; uma obra que, tal como geralmente acontece com as suas, cresce e cresce à medida que a lemos, até nos absorver completamente e nos deixar, no final, com a sensação – mais forte quanto mais digerida – de que experienciámos algo de muito especial. A premissa é simples e, como expectável, fantasiosa com um fundo de verdade: Marco Polo, explorador real do século XIII, descreve ao igualmente histórico Kublai Khan, neto do infame Gengis Khan e grande imperador oriental sob cujo serviço terá verdadeiramente estado, as muitas cidades do seu império, que o mesmo, de tão ocupado, não pode visitar por si próprio. Quando examinada de perto, a estrutura da obra revela-se complexa e, certamente, planeada a fundo (várias representações gráficas têm vindo a ser feitas no sentido da sua esquematização); no entanto, numa primeira leitura às cegas, As Cidades Invisíveis consiste, simplesmente, numa sucessão de curtíssimas descrições de cinquenta e cinco cidades – todas com nomes de mulher – intercaladas com excertos da conversa entre os dois homens, sendo que estas últimas iniciam e terminam sempre cada uma das nove secções que compõem o pequeno romance. Graças à cadência rápida desta organização, assim como à simplicidade da linguagem usada e ao tom fabulado dos pequenos excertos, As Cidades Invisíveis é um livro que passa num instante e que, no final, sabe a pouco: embora cedo nos apercebamos de que é praticamente perfeito exactamente como foi concebido, sem mais nem menos.

Naturalmente, as cidades mencionadas por Marco Polo não existem na nossa realidade – nem tal seria possível, já que praticamente todas desafiam os princípios fundamentais lógicos e físicos do nosso universo; também a conversa entre o explorador e o imperador, que, em termos filosóficos e de mensagem, pouco ou nada deve às descrições das cidades que constituem o grosso da obra, é totalmente ficcionada. Assim, e após a compreensão de que lemos um tratado completamente especulativo, As Cidades Invisíveis pode ser apreciado de uma de duas formas (ou, preferencialmente, de ambas): numa aproximação imediata, enquanto pura criação da imaginação, providenciando verdadeiro prazer literário para quem gosta de ler pela beleza das próprias palavras e dos mundos que as mesmas criam no cenário da nossa mente; ou, então, em análise, pelo significado alegórico que pode ser extraído de quase cada pequeno pormenor de cada descrição de cada cidade, e de cada fala de cada excerto da conversa entre as duas únicas personagens. De facto, estas “cidades invisíveis” representam, na verdade, cidades reais, ou pessoas reais, ou conceitos reais – o nosso mundo, nós, as nossas ideias e as nossas relações: e é aqui que, pessoalmente, encontro o maior valor desta magnífica obra-prima de Calvino, simultaneamente tão clara e profunda como um exótico lago invernal que escondesse mil universos sob as belas águas paradas. Vejamos este curto exemplo, um dos muitos que registei:

A pergunta: – Porque demora tanto tempo a construção de Tecla? – os habitantes sem deixarem de içar baldes, de soltar fios de prumo, de mover para baixo e para cima longas trinchas, respondem: – Para que não comece a destruição.
— Parte VIII: ‘As Cidades e o Céu’, 3.

Gore Vidal escreveu um dia que “de todas as tarefas, descrever o conteúdo de um livro é a mais difícil, e, no caso de uma invenção maravilhosa como As Cidades Invisíveis, perfeitamente irrelevante”. Não encontro forma mais eficaz de sublinhar que, acima de tudo, As Cidades Invisíveis é uma experiência que tem de ser tida, não explicada; como todas as grandes obras, esta terá, certamente, o condão de se mutar de leitor para leitor, de alma para alma, de cérebro para cérebro, significando, para cada um, algo diferente: dificilmente duas pessoas distintas terão as mesmas “cidades preferidas”; dificilmente serão tocadas pelas mesmas ideias entre as muitas trocadas por Marco Polo e o seu nobre interlocutor. Uma coisa, no entanto, é certa e, creio, universal: o enorme prazer de ler Calvino enquanto concretização última do escrever pela pura alegria de escrever que sempre o parecia inundar, e que, no caso específico desta maravilhosa conquista da beleza poética em prosa, se terá mostrado particularmente inspirado.

Um simpático ser humano sob todas as perspectivas; um fantástico criador de mundos roubado precocemente a este; aqui, talvez, a sua obra-prima: indiscutivelmente, uma das várias. A ler, e saborear, e reler, e pensar, e reler, e citar, e reler, e reler, e reler.

  • Classificação: 10/10 (Extraordinário)
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