As palavras vêm antes. As palavras que são tudo e não são nada, que transfiguram, mutam, traem; que falham quando faltam e excedem quando não. Na distância infinita do que te quis dizer, nem as palavras quebraram a densidade do ar parado, esse ar estéril em que gestos morreram ainda antes de esboçados; essa fleuma tóxica que nem a respiração se atreveu a perturbar: que os pulmões, tão perto do coração, talvez por ele avisados, temeram deixar entrar. Um vampiro só entrará se convidado, diz-se. Diz-se. Tudo são palavras; as palavras não são nada; tudo é nada. Nem o meu vampiro pode ser igual ao teu vampiro; que coisas exóticas, alienígenas à minha intenção, poderão então assomar-se no teu espírito, meu deus, se te falar de amor?

Quatro letras apenas, quatro letras que ambos aprendemos na flor da vida, que ambos podemos ver, pronunciar; quatro letras que se unem automaticamente nos nossos lábios no mesmo som, mas nunca da mesma forma nas nossas almas. E o ar ali estagnado, e o tempo a passar por ele e por nós como um barco numa tempestade de tímpanos rasgados, como a rolha no gargalo que já abandonou e a cuja pertença de novo se força, como colheres ávidas em gelatina espessa nas mãos de uma criança; o tempo a passar sempre, inexoravelmente, a justificar-se a si próprio, ele que também é o nada que é tudo, ele que nos traz e nos leva: e as palavras a falhar; e os gestos a definhar no aperto da garganta. Tantos e tão sós; tão perto e tão longe. Não entro em ti, não te toco sequer, não me lês pele nem olhos nem boca; somos cegos. Julgo ver-te quando apenas me vejo; também tu o fazes; só nessa mentira encontramos fôlego para continuar, para dar corda ao retomar incessante das horas. A vida é a mentira. A verdade é que nascemos e morremos a conhecer o mesmo do mundo: o que de nós próprios transborda, e disso não mais do que o que ousamos agarrar: e mesmo assim apenas em código; e mesmo assim pouco e mal.

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