Crónica

Podemos viver como se a Terra fosse plana. No dia-a-dia, não faz sentido de outra forma, nem outra coisa seria possível; somos pequenos demais. Mas, à noite, quando tudo aperta, incluindo o ar, e a escuridão nos vira o olhar para dentro, percebemos finalmente, uma e outra vez como se sempre da primeira se tratasse, que é redonda. É redonda. E essa visão, essa assombração que nos corta a respiração e nos congela o sangue, por um momento elevando-nos a um estado de consciência e sabedoria para o qual não fomos feitos e não estaremos nunca preparados, faz-nos rezar e lutar pelo amanhecer, pelo esquecimento, pela ignorância – pela continuação. Sem saber porquê, ou para quê.

Hoje, o sono encontrou-me resistente. Fui assaltada por pensamentos divagantes mas todo-poderosos, como o são todas as reflexões sérias sobre o real significado de estar vivo. Ocorreu-me, então, que os meus pais só conhecerão os seus netos quando forem idosos ou praticamente idosos; na melhor das hipóteses, morrerão na sua adolescência, ou no início da sua idade adulta: no ponto da vida em que estou agora, portanto, ou ainda antes.

Penso muitas vezes em como gostaria que a minha avó tivesse sabido que me tornei médica. Penso muitas vezes em tudo o que daria para que os fantasmas estranhos na minha vida não me fossem tão estranhos: para que o tio de quem herdei o nome não fosse só um espectro no meu imaginário, com a consistência das lendas; para que os meus avós tivessem, todos eles, conhecido o ser humano que sou, e eu os que eles eram – quer tivéssemos gostado do que víamos, quer não. No fundo, ocorreu-me, pela primeira vez, como me custará que os meus filhos existam na mesma situação que eu – e pareceu-me impossível que os meus pais não sofram com estes elos eternamente quebrados antes de sequer o poderem ser; que não lhes doa no mais fundo da alma a impossibilidade de partilharem o seu maior e melhor feito na vida – como eu espero que os meus filhos sejam, também, para mim – com aqueles que, enquanto cresceram, lhes representaram o Amor.

Penso, com toda a minha força, que quero que os meus filhos saibam de onde vêm. Penso, com essa força e mais alguma, que quero que os meus pais saibam para onde vão – que, com os seus próprios olhos, se procurem e encontrem nos traços mais subtis de uma descendência gerações e gerações depois de si. Penso também que a lógica matemática e biológica não permitirá, provavelmente, que isso aconteça. E, claro, por fim, e ainda no mesmo milissegundo, penso que, de tão natural, essa tragédia nem tragédia se chama – nem esse epíteto lhe é concedido; nem com esse rótulo conta para lhe oferecer vulto, importância, significado. E ocorre-me, então, que a vida é uma cadeia de aleatoriedades, uma amálgama sem sentido em que, de facto, não controlamos nada, do início ao fim. Ocorre-me não de passagem mas a sério, do fundo do coração, de onde vêm os baques e os sufocos e os terrores nocturnos.

Racionalmente falando, nada disto muda coisa alguma. Não irei a correr ter filhos apenas para que os meus pais os possam conhecer mais cedo: sabe-se lá, até posso ser infértil. Mas este limite, esta irreparável consciência do limite, estará sempre comigo, porque as Grandes Verdades Universais vêm sempre para ficar: e, na sua ténue sombra de meio-dia, prevejo-lhe já o crepúsculo da grande mágoa; do arrependimento ilógico, mas nem por isso menos real, do inevitável.

Podemos viver como se a Terra fosse plana. No dia-a-dia, não faz sentido de outra forma, nem outra coisa seria possível; somos pequenos demais. Mas, à noite, quando tudo aperta, incluindo o ar, e a escuridão nos vira o olhar para dentro, percebemos finalmente, uma e outra vez como se sempre da primeira se tratasse, que é redonda. É redonda. E essa visão, essa assombração que nos corta a respiração e nos congela o sangue, por um momento elevando-nos a um estado de consciência e sabedoria para o qual não fomos feitos e não estaremos nunca preparados, faz-nos rezar e lutar pelo amanhecer, pelo esquecimento, pela ignorância – pela continuação. Sem saber porquê, ou para quê. Se tivermos sorte, sabendo como.

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