Título Original: 猫の客 (Neko no Kyaku)
Título em Portugal: N/A
Autor(a): Takashi Hiraide
Ano de Publicação: 2004
Edição: Picador, 2014
N.º de Páginas: 140
Encadernação: Capa Mole
Preço: £7,99 (Daunt Books)

  Classificação: 5/10 (Razoável)  

The Guest Cat encontra a sua redenção num punhado de passagens de razoável valor filosófico, e no potencial interpretativo que apresenta quando visto como uma grande metáfora. Também o final, embora à primeira vista deslocado e de dúbia utilidade narrativa, fornece um pouco de tempero à mistura insossa que quase todo o restante texto constitui. À excepção disso, e na sua globalidade, esta é uma obra que diz muito pouco: não encontro nela nada daquilo que a crítica tenta fazer passar por “prosa poética e simplista” […], e creio que grande parte do impacto dos sentimentos nela retratados se perde no choque cultural, na tradução, ou, mais provavelmente, em ambos.

Apesar de originalmente lançado em 2004, The Guest Cat (título passível de tradução livre para a língua portuguesa como “A Gata Convidada”), único romance até à data do poeta japonês Takashi Haraide, adquiriu, nesta época natalícia, o estatuto de bestseller improvável em todo o mundo anglo-saxónico, ao se ver publicado pela primeira vez na língua inglesa no corrente ano. Apesar de inicialmente negligenciada pela crítica ocidental, a pequena obra rapidamente se tornou num favorito entre os vendedores, que, destacando-a sucessivamente, contribuíram para o escalar de popularidade que a ela se tem vindo a associar nos últimos meses. Numa viagem recente a Londres, a curiosidade despertada pela presença do volume nos tops de vendas de todas as livrarias – e, como não poderia deixar de ser, a beleza da capa… – acabou por me vencer, e também eu me tornei dona de um exemplar deste singular registo sobre gatos e pessoas, posse e perda, destino e luto, que agora analiso.

Há muito a dizer sobre a forma errónea como este livro é apresentado. A sinopse fornecida pela editora descreve-o como a história de crescimento e reencontro anímico de um casal jovem que caíra na rotina do silêncio: um reencontro incitado e catalisado pelo surgimento inesperado de uma gata enigmática na vida dos dois, e pela nova forma de ver o mundo e as pequenas coisas a que ela lhes abre a porta. Esta visão não podia ser mais enganosa, ou estar mais longe da verdade. Na realidade, esta obra é sobre tudo menos a relação entre os dois protagonistas humanos (nenhum deles com nome revelado ao longo do texto): a sua ligação não sofre alterações substanciais do início ao fim da história, mostrando-se sempre saudável e estável para o contexto cultural em causa. Na melhor das hipóteses, e apesar de uma descrição se revelar surpreendentemente difícil, poder-se-á dizer que The Guest Cat é sobre a relação de cada um dos elementos do casal com a já mencionada gata, e, consequentemente – já que a figura da gata é fortemente simbólica e metafórica –, com a relação de cada um com os conceitos de posse, perda, destino e luto. Outra introdução pouco exacta ao que nestas páginas se passa é a afirmação, associada a variadíssimas críticas à obra (incluindo a que se encontra transcrita na capa da edição que li), de que esta não deverá ser passada à frente por ninguém, quer se goste de gatos, quer não. De certa forma, isto é verdade: é, de facto, bastante irrelevante, para o usufruto específico aqui em causa, se se gosta de gatos ou não, e isso rapidamente se torna óbvio. No entanto, não o digo no provável bom sentido originalmente pretendido pelos autores da afirmação, antes pelo contrário: afinal, eu sou uma amante intemporal e incondicional de gatos, e o livro disse-me muito pouco.

A literatura nipónica é variada e de difícil penetração para os ocidentais. São raros os autores japoneses capazes (e/ou com vontade) de estabelecer uma ponte de comunicação com este lado do mundo: Murakami é, de longe, o maior estandarte de um equilíbrio entre a sua cultura de origem e a nossa forma de expressão, mas também Kyoichi Katayama (Um Grito de Amor desde o Centro do Mundo) se mostra capaz dele, entre outros exemplos. Ao contrário do que um principiante no assunto possa pensar, a raiz deste desencontro prende-se, mais do que com as disparidades de língua, hábitos e costumes, com uma interpretação e valorização completamente divergentes – por vezes, mesmo opostas – dos sentimentos e da própria vida humana. É extremamente difícil, para alguém que não tenha crescido sob a influência da cultura japonesa, compreender o enorme peso por ela colocado nas subtilezas, no que fica por dizer e fazer, nas tensões impronunciáveis: um peso muito maior do que o atribuído às acções explícitas ou aos desejos consumados. A noção das almas gémeas para sempre separadas pelo tempo, o valor da pureza e contenção genuínas, a fidelidade eterna a algo que nunca se poderá sequer tocar, a nobreza pela nobreza e a custo da própria felicidade: todos estes conceitos dramáticos, e muitos outros como eles, surgem exóticos e quase impossivelmente ingénuos à mente ocidental, mas fazem parte da herança histórica emocional de todos os japoneses, e, por isso mesmo, são pervasivos em todas as suas formas de arte. Por tudo isto, a tradução de obras nipónicas é um feito de extrema dificuldade, em que, certamente, muito se perde – e tanto mais quanto pior, ou menos cuidadoso, o tradutor. Entre outras coisas, creio que poderá ter sido este último o caso com The Guest Cat.

A premissa em jogo é a de um casal de jovens escritores que vivem uma existência algo monótona na casa de hóspedes de uma grande habitação numa zona calma de Tóquio. Um dia, surge na sua rua uma pequena gata abandonada extremamente activa, descrita desde o início como anormalmente misteriosa e etérea (aparentemente, mesmo para um gato). “Chibi” – palavra japonesa para “pequeno(a)” –, como vem a ser chamada pelos protagonistas, é adoptada por uma família vizinha, mas cedo começa a esquivar-se para o jardim e habitação do casal, que, com o tempo, se tornam na sua segunda casa. As visitas vão-se revelando cada vez mais longas e frequentes, até assumirem os contornos de rotina, e, apesar de nenhum dos dois gostar particularmente de gatos, ambos os elementos do casal acabam por se render, cada um à sua maneira, aos encantos de Chibi: a sua independência quase selvagem e a sua inesgotável energia de viver abrem-lhes os olhos a uma beleza de todas as coisas que já haviam esquecido, ou que nunca tinham conhecido; o seu mundo monocromático ganha cor, e o seu próprio ímpeto vital, como que por osmose, descobre novos picos. No entanto, tal como a sua casa é alugada, também Chibi não lhes pertence… e um acontecimento inesperado acaba por colocar um ponto final na relação dos três, dando início a um arrastado período de luto cheio de reflexões sobre o significado de ter e perder; sobre as diferentes formas de sofrer, e de ultrapassar o sofrimento de uma ausência irreversível; e, finalmente, sobre o destino e a aleatoriedade, a vida e a morte. O final é redentor e cicatricial, mostrando que o fluxo da vida segue sempre, e que a possibilidade de dar e amar nunca se esgota, mesmo que o receptor mude à força: no entanto, os últimos parágrafos, altamente crípticos, cobrem-se de um ambiente de sugestão misteriosa totalmente divergente do texto precedente, em que o narrador questiona a veracidade da história tal como até aí fora contada e quase convida o leitor a reflectir sobre o que poderá realmente ter acontecido a Chibi: uma provocação confusa e algo estéril, que nunca fornece uma resposta e que, dada a escassez de dados, não permite sequer a sua inferência – conferindo, apesar de tudo isso, um toque de adrenalina ao pequeno romance que não lhe assenta mal de todo.

A verdade é que, para uma história tão curta e, ainda por cima, com um gato em principal destaque, esta foi uma obra que me aborreceu profundamente quase até ao final: mais especificamente, até ao acontecimento, já mencionado acima, que muda o rumo da narrativa. Durante mais do que a sua primeira metade, The Guest Cat não passa do relato exaustivo das visitas de Chibi e das suas características: um relato pautado por descrições físicas e geográficas de minúcia quase absurda mas, ainda assim, extremamente confusas, quase impossíveis de visualizar – se por falha original ou do tradutor, é-me impossível saber. Também impossível de determinar é a responsabilidade de um erro factual no texto: “Cal”, um gato vadio mencionado a certo ponto, é descrito como sendo calico (tricolor) e macho, combinação biologicamente impossível devido à ligação entre os determinantes de género e cor do pêlo no genoma dos gatos, que faz com que apenas as fêmeas possam ser tricolor. Apesar de este não passar de um pormenor, dir-se-ia bastante evitável num livro tão curto e de protagonismo felino tão extenso; a tratar-se de um lapso do autor, revela uma insuficiência de pesquisa a roçar o ridículo.

The Guest Cat encontra a sua redenção num punhado de passagens de razoável valor filosófico, e no potencial interpretativo que apresenta quando visto como uma grande metáfora. Também o final, embora à primeira vista deslocado e de dúbia utilidade narrativa, fornece um pouco de tempero à mistura insossa que quase todo o restante texto constitui. À excepção disso, e na sua globalidade, esta é uma obra que diz muito pouco: não encontro nela nada daquilo que a crítica tenta fazer passar por “prosa poética e simplista” – não se escreve “prosa poética” só por se ser um poeta a escrever prosa, ou, pelo menos, não neste caso: prosa poética é José Luís Peixoto, que não podia estar mais longe do estilo encontrado neste texto; em relação à simplicidade, e como já referido, as descrições aqui presentes são detentoras de tudo menos isso: a menos que “simplista” seja agora sinónimo de “passível de dar um nó na cabeça” –, e creio que grande parte do impacto dos sentimentos nela retratados se perde no choque cultural, na tradução, ou, mais provavelmente, em ambos.

Apesar da capa lindíssima desta edição britânica da Picador, e por mais que goste de gatos, não consigo recomendar The Guest Cat a ninguém de que me lembre – quanto mais ao público em geral. Este Natal, e não só neste, sugiro que fujam à norma e procurem os vossos presentes literários entre a verdadeira qualidade: o que, na generalidade e infelizmente, significa longe das prateleiras dos tops.

  • Classificação: 5/10 (Razoável)
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