Título Original: 神の子どもたちはみな踊る (Kami no Kodomo-tachi wa Minna Odoru)
Título em Portugal: N/A
Autor(a): Haruki Murakami
Ano de Publicação: 2000
Edição: Vintage, 2003
N.º de Páginas: 134
Encadernação: Capa Mole
Preço: £8,99 (Amazon)

  Classificação: 8/10 (Muito Bom)  

[…] os temas tocados em After the Quake têm pouco a ver com o terramoto que lhe dá nome e mote, focando-se antes na busca humana pelo mérito próprio: pela construção da identidade e da integridade, não através de outrem – de quem somos filhos, da religião a que pertencemos, dos amigos que temos, da profissão que exercemos –, mas pelo traçar do nosso próprio caminho. Estas são histórias de lutas internas, humildes e silenciosas pelas verdadeiras vitórias da vida, e também, em alguns casos, pelo conhecimento do que as define; estas são sagas de pessoas contra o anonimato do passar inexorável do tempo, em que a aceitação da morte é encarada e procurada, e o aproveitar em pleno da vida apresentado como a única forma de a conseguir.

O meu encontro com este livro, de tão fortuito e peculiar, merece, creio, uma referência. Acontece que, neste 23 de Dezembro, o recebi da Amazon por engano, junto com The Man Who Loved Only Numbers, de Paul Hoffman. De acordo com o recibo incluído na encomenda, o provável fã de Murakami para quem a mesma originalmente se destinava seria um vienense de nome Thomas Fritz (que, também muito provavelmente, a esperaria para o Natal…). Apesar da óbvia chatice causada pela troca dos meus livros pelos de outra pessoa – primeiro incidente do género em que me vejo envolvida, em quase cinco anos como cliente assídua da Amazon –, este tipo de desordem cósmica é-me, geralmente, tão deliciosa, pelo cruzar improvável de vidas humanas distantes e pela consequente universalidade que envolve e implica, que, francamente, não me importei com o sucedido: até porque, como cedo viria a descobrir, a Amazon me permitiria, como compensação pelo erro, ficar com os dois livros que me haviam sido enviados por engano. E foi assim que, encontrando-me, leitora prévia de Murakami, com uma sua obra ainda desconhecida à frente – ainda por cima, tão curta e no formato de contos –, decidi, nesta Consoada e pelo dia de Natal adentro, entreter-me com aquilo que calculava que fosse literatura leve e serena, para descansar um pouco das minhas recentes incursões no pesado imaginário de Sartre.

Como sempre tenho vindo a dizer em todas as minhas críticas aos seus trabalhos, Murakami é um autor dual, com um par de facetas distintas que revela em menor ou maior grau de obra para obra: a mágica e a humana. Pessoalmente, e também nisto me repito, esta última diz-me muito mais: é, de longe, no Murakami melancólico e tragicamente belo de A Sul da Fronteira, A Oeste do Sol que mais me revejo, e não no das várias histórias fantasiadas, confusas e de dúbio objectivo da colecção de contos The Elephant Vanishes, por exemplo, ou mesmo no dos elementos mais irrealistas de outros livros globalmente razoáveis, como Sputnik, Meu Amor ou After Dark. A verdade é que, quando decide dedicar-se à tarefa, Murakami é um escritor capaz de atingir espaços extremamente interessantes do entendimento humano, da construção do que é ser pessoa, e fá-lo de tal forma que qualquer possível e expectável choque cultural, dadas as suas raízes nipónicas, é atenuado e estreitado na demonstração da universalidade do sentir e do sofrer humanos.

Ao contrário do que temia – afinal, as últimas coisas que tenho lido do autor não têm sido muito ao meu gosto, fazendo-o descer um pouco na tabela das minhas preferências – After the Quake é, precisamente, uma perfeita demonstração do que de melhor há em Murakami. Estas seis pequenas histórias, vagamente construídas à volta do evento trágico que foi o terramoto de Kobe de 1995, constituem retratos sóbrios e muito elegantes, pela sua fluidez e ideal economia de palavras, de variados existires humanos, unidos pelo facto de serem protagonizados por incompreendidos e/ou oprimidos da sociedade: pessoas excluídas, desvalorizadas e vazias de amor próprio, tanto por serem demasiado vulgares como por não saberem expor ou impor o que de menos vulgar as caracteriza; no fundo, pessoas que, por um motivo ou outro, estão a perder no jogo da vida, seja perante a sua família, nas suas relações mais íntimas, dentro do seu grupo de amigos ou mesmo no seu campo profissional. Embora sem abdicar definitivamente do seu casamento de longa data com as metáforas e o simbolismo, Murakami revela aqui um uso muito mais moderado, treinado e feliz dos mesmos: apenas uma das histórias, “Super-Frog Saves Tokyo”, se pode considerar mais destacada do conjunto a nível de extravagância – afinal de contas, narra o travar de conhecimento entre um homem vulgar e apagado, funcionário do departamento de empréstimos de um banco, e um gigantesco sapo falante que pede a sua ajuda para salvar Tóquio; no entanto, mesmo nela, o foco, para o leitor entendido, não é a história fantástica e impossível em si, mas sim o estado mental do homem que a imagina: no final, o narrador deixa claro que tudo não passou de um delírio ou de um sonho, sendo, portanto, que nem nesta instância o uso do ilógico se revela gratuito ou incompreensível, como em alguns dos piores trabalhos de Murakami (nomeadamente, e dentro do que conheço, os contos mais estranhos de The Elephant Vanishes), mas sim um meio para um fim. De resto, as outras cinco histórias da colecção são completamente desprovidas de fantasia ou elementos mágicos: quase todas fazem uso de uma ou outra metáfora inteligente, ou não estivéssemos a falar deste autor, mas a prática da alusão termina aí, sendo que o conjunto da obra resulta numa leitura extremamente terra-a-terra, muito mais exercício psicológico do que da livre imaginação. “Honey Pie”, “Thailand” e “All God’s Children Can Dance”, em particular, são explorações riquíssimas da psique humana, sendo que o primeiro, conto mais longo do agregado, possui, na minha opinião, especial valor e consistência narrativos, tendo emergido como meu favorito: mas, na verdade, na sua apresentação aberta e isenta de tabus, preconceitos ou falsas morais das mais diversas áreas da intimidade humana, todos têm qualidade, e, precisamente pelas suas diferenças, todos merecem ser lidos.

Com isso dito, os temas tocados em After the Quake têm pouco a ver com o terramoto que lhe dá nome e mote, focando-se antes na busca humana pelo mérito próprio: pela construção da identidade e da integridade, não através de outrem – de quem somos filhos, da religião a que pertencemos, dos amigos que temos, da profissão que exercemos –, mas pelo traçar do nosso próprio caminho. Estas são histórias de lutas internas, humildes e silenciosas pelas verdadeiras vitórias da vida, e também, em alguns casos, pelo conhecimento do que as define; estas são sagas de pessoas contra o anonimato do passar inexorável do tempo, em que a aceitação da morte é encarada e procurada, e o aproveitar em pleno da vida apresentado como a única forma de a conseguir. Por tudo isto, After the Quake revelou-se, para mim, tanto uma surpresa quanto uma pequena delícia: uma forma muito agradável de passar algumas horas, e que recomendo fortemente. Infelizmente, dentro da vasta obra de Murakami, este é um dos poucos títulos que ainda não se encontra traduzido em Portugal. Talvez esta situação se prenda com o facto de também ser um dos menos populares (não pude deixar de notar que é uma das menos lidas e possui uma das classificações mais baixas de entre as obras do autor listadas no site Goodreads) – há que ter em conta que a faceta mágica de Murakami, que tão pouco me diz, é, para todos os efeitos, extremamente apreciada pelas massas. De qualquer das formas, espero que o cenário mude, e que, num futuro próximo, esta bonita obra possa ser adquirida nas prateleiras das nossas livrarias e passível de usufruto na nossa língua materna.

  • Classificação: 8/10 (Muito Bom)
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