Crónica

Não está na nossa estrutura aprender pelo olhar do outro; não nos conseguimos apropriar da memória alheia. É por isso que ainda há religião depois de Nietzsche; é por isso que, quase um século sobre Camus, a noção de Absurdo é ainda, nas cabeças de tantos, absurda, e o Além uma certeza inquestionada. Cada vida é o universo a começar de novo.

A História não é nada. Cada ser humano é todo o processo recomeçado de novo, uma e outra vez. Não está na nossa estrutura aprender pelo olhar do outro; não nos conseguimos apropriar da memória alheia. É por isso que ainda há religião depois de Nietzsche; é por isso que, quase um século sobre Camus, a noção de Absurdo é ainda, nas cabeças de tantos, absurda, e o Além uma certeza inquestionada.

Cada vida é o universo a começar de novo. E de nada vale escrever, ler ou ensinar, a não ser para o desabrochar de cada caso individual, para o avançar de cada capítulo – que com a morte se encerra, reiniciando o círculo. Tudo é inútil, fundamentalmente inútil. Cada pessoa será sempre o que quiser ser, o que calhar ser, e de nada importará o que alguém disse sobre isso há um número indefinido de anos, ou o que eu digo agora. A única coisa que vai ficando desta ilusão de consciência colectiva que, no fim, não passa de um punhado de cinzas em mãos descuidadamente abertas – a única coisa que permanece, como uma marca de água, um vestígio de conquista, é a cultura dos povos, necessariamente soma aproximada (ou mediana) da dos indivíduos que os constituem, e que vai lentamente mudando: um pequeno ajuste aqui, um grande passo em frente ali, outro atrás mais adiante – e mesmo isto é dúbio e subjectivo, pois frente e trás não são as mesmas direcções de cabeça para cabeça; mas por mim falo, se, afinal, só por mim posso falar –, recalibrando uma e outra vez o que é a norma, o que é a base com que nasce um dado indivíduo; o que é a tela em branco – que, na verdade, de branco nada tem – em que cada nova história principia a desenhar-se.

Mas, no final, até isto é redundante; até isto é cíclico. Somos fruto dos tempos e de nós próprios; podemos, então, por um qualquer desvio de cálculo, por qualquer necessário e inevitável resvalo de balanço, resultar diferentes do nosso tempo ou de nós próprios. Nada é previsível, nada é controlável; há conservadores da Idade Média entre nós que agora respiramos, tal como naquela visionários houve. E essa é simultaneamente a condenação e a beleza do mundo: pois a isso se chama, afinal, liberdade.

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