Fazem-me falta o sol e a rua,
Em todos me sei e em nenhum me encontro.
Fazem-me falta velhos em bancos de jardim,
As vidas conservadas quase a passar de prazo
Em latas que ninguém abre,
Despensas de pó e naftalina
Que destrancaria eu, se encontrasse a chave,
Mas falta-nos sempre o tempo.
E senhores de casacos arrependidos
E existências coçadas
A fazer as compras da manhã
Para casas que não conheço,
Mas que são minhas,
O olhar vago
A deixar o meu virgem.
E as raparigas jovens de vontade,
Os corpos vibrantes de sede
Prestes a voar com os pássaros
Para alpendres secos de sebes altas,
E para o morrer dos sonhos
No silêncio das paredes.
E sim, vejo-as também:
Vejo as criancinhas a correr pela calçada,
Mochilas às costas e lancheiras na mão
E tranças a voar ao sabor dos risos desdentados,
Mas essas não as sinto –
Se calhar nunca as fui.

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