Sinto-o hoje como ontem o via em todos os sítios. Viro-me, e a memória faz-se gente; está lá, respira – aperta e mata. Em casa e na rua, em asfalto e em carris, na cama, na cama, na cama, no mar e no rio, em terra e no ar, de dia e de noite e de madrugada, com uma guitarra a chorar ou eu por ela, sóbria de morte e intoxicada de vida, para cá e para lá das fronteiras deste rectângulo milenar. Pisei com ele todos os chãos que conheço – todos os céus. Nenhum cheiro em mim que nele não esteja também; nenhuma nota nos meus ouvidos que não lhe pudesse ter saído dos lábios. Sabores e sorrisos, lágrimas e cores. Chocolate e pimenta, sal e pimenta. Na pele dele – na minha.

Não sei porque o trago tão perto, porque o faço tão vivo. É a mais ausente de todas as presenças; a mais presente de todas as dores que não se sentem – a mais ruidosa das surdas. Mas os porquês perderam o sentido; tudo perdeu o sentido, porque ter sentido o perdeu também. Hoje há apenas factos a olhar nos olhos, factos flutuantes e borbulhantes que me vencem no jogo do sério, factos parados e trémulos como garrafas de vidro partidas em mares de sargaço até perder de vista. A mente; esta.

Desisto de me justificar e deixo-me cair. Esqueço a peça perdida do puzzle e, enfim, o silêncio leva-me. Nele, na magia dos olhos fechados, o puzzle está completo; um puzzle sem peças, um pensamento por pensar. Não é preciso. Nesta infinitude de nada, nesta greve dos sentidos, nesta ausência de rua em mim, tu és tudo em todas as direcções. O teu vulto, indefinido no azul cansado do interior desta bola – as feições concretas que não preciso de evocar para saber – o eco de algo que parece nunca ter sido, mas aqui está; será sempre, afinal. Afinal.

Tu. Tu. Em todos os lados, em todas as coisas. Tu. Tu, tu, tu. Para o pior e para o pior, ontem e sempre, tu. Uma dor sem sentido sempre por sentir… e tu.

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