“Que o céu exista, mesmo que o nosso lugar seja o inferno.”

Que o inferno seja o nosso lugar, mesmo que o céu exista, se neste nada mais houver do que as sombras alvas de santos falsos, cortinas de pó corridas sobre humanidade testada e perdida; nada escondido, porque nada há a esconder. O vazio. O vazio. O vazio de olhar o outro e não o ver, porque em nós nada existe, porque nunca nos vimos, porque não sabemos ver; porque não há o que ver. Não reconhecer por não conhecer; não compreender por não sentir.

Que sabes tu de mim afinal, vazio espectro, do alto do teu trono de ouro roubado? Que sabes tu do fogo que me queima, da ausência de vendas com que calcorreei, em bicos de pés, a infância deitada ao mar? Que sabes tu das brasas que me fazem andar – da solidão que, pela mão e a sangue, me desenhou rainha?

Vejo-te e sei-te: vejo-me; sei-me. Encontro-me no negativo de ti, seja isso de que cor for – hoje preto, amanhã branco; o mundo é uma roda nas mãos de um Diabo que ri, de um Diabo que ri dos que julgam saber aonde nunca irão parar.

Linhas não há que me contenham enquanto me souber. Fecho o livro dos carneiros; com um beijo na capa moída me despeço para sempre; já não preciso de os contar. Dos ídolos apodrecidos conheço a luz falsa: escolho a escuridão. Solo a solo, lua a lua, desenho o meu destino. Tudo o aqui jaz é meu – mesmo todo o nada; mesmo todo o nada.

Que o nosso lugar não seja o céu, se no céu apenas fumo, se no céu apenas espelhos; se, no céu, espartilhos e submissão.

Anúncios