Título Original: Summer Crossing
Título em Portugal: Travessia de Verão
Autor(a): Truman Capote
Ano de Publicação: 2005
Edição: Leya, 2009
Colecção: BIS
N.º de Páginas: 126
Encadernação: Capa Mole
Preço: €5,95 (Fnac)

  Classificação: 8/10 (Muito Bom)  

De frio, afinal, Capote não tem nada, emanando, ao invés disso, a burguesia descritiva do mais delicioso realismo omnisciente do século XIX, mas enquadrando-a na flexibilidade narrativa de um autor do nosso tempo, com toda a fluidez, variedade e ataque à monotonia que isso implica. O Capote que esta curtíssima obra apresenta não cansa, não conseguiria cansar; as pessoas e enredos em que nos envolve são demasiado apertados, excessivamente vivos – queremos estar lá até ao fim, e saboreamos cada segundo do percurso.

Até há muito pouco tempo, “Capote” era um nome que eu associava a… bom, Philip Seymour Hoffman. Não que desconhecesse a identidade do famoso autor americano: simplesmente, era completamente alheia ou seu estilo e obra – e, não tendo sequer visto o supramencionado filme em que consistia a minha única referência concreta, pouco ou nada sabia sobre ele. Francamente falando, algo em mim sempre esperou que Truman Capote fosse um autor frio, perigoso, vazio de sorrisos; esta deve ser uma expectativa que criei com base no único título de que sempre o soube autor, ou seja, In Cold Blood (A Sangue Frio), que se trata, de facto, do relato de um assassinato real – mas será que eu já estava em posse desta informação quando apliquei a parte ao todo, ou a sugestão de gelo e crime foi mera emanação das palavras no nome da obra? Sinceramente, não me recordo.

De qualquer forma, o que encontrei em Travessia de Verão, obra que adquiri numa enorme compra que efectuei este ano no contexto de um período de promoções da Fnac, surpreendeu-me de todas as formas possíveis. Aquilo que se me apresentou foi um escritor que, na sua primeira tentativa – Travessia de Verão, apesar da publicação póstuma, é, cronologicamente, o primeiro romance de Capote, escrito durante os anos quarenta –, já fazia das palavras e da técnica o que queria e lhe apetecia, com a destreza de um veterano de renome, tecendo com elas mundos tão palpáveis como os de W. Somerset Maugham (e também com eles muito parecidos em ambiente), em redor de temáticas que colocam o melhor – bom, na minha opinião, o mais tolerável – de F. Scott Fitzgerald em cheque. No fundo, Travessia de Verão é, de facto, a travessia metafórica de uma jovem de dezassete anos, Grady, desde uma espécie de inocência – a possível nas classes francamente favorecidas da Nova Iorque do pós-Segunda Grande Guerra – até uma espécie de idade adulta, durante o calor avassalador de um Verão americano. A partilha de, ou foco sobre, pormenores que estragariam a história aos que ainda não a leram parecem-me desnecessários nesta crítica; direi apenas que já há muito que não lia um livro tão rápido, com tanta vontade, e, acima de tudo, com tanto prazer. Grady – a quem poderíamos facilmente chamar Kitty, ou Daisy: os conhecedores de Maugham e Fitzgerald compreenderão a referência – e as personagens que a rodeiam, dando miolo à história, são sólidas, de carne e osso, tão fáceis de visualizar como se nos surgissem num ecrã, e o mesmo pode ser dito das paisagens e dos espaços. De frio, afinal, Capote não tem nada, emanando, ao invés disso, a burguesia descritiva do mais delicioso realismo omnisciente do século XIX, mas enquadrando-a na flexibilidade narrativa de um autor do nosso tempo, com toda a fluidez, variedade e ataque à monotonia que isso implica. O Capote que esta curtíssima obra apresenta não cansa, não conseguiria cansar; as pessoas e enredos em que nos envolve são demasiado apertados, excessivamente vivos – queremos estar lá até ao fim, e saboreamos cada segundo do percurso.

Travessia de Verão tem falhas, é criticável; não foi, certamente, por mero acaso que Capote se recusou, durante toda a sua vida, a publicá-lo, considerando-o desmerecedor de tal – foi Alan Schwartz, seu advogado e único titular do seu fundo literário, que, em consciência legal e pessoal, se decidiu a isso em 2004-2005, aquando da descoberta do manuscrito perdido –, nem deve tratar-se de pura coincidência que a maioria dos leitores considere este o seu pior trabalho (o que, na verdade, eleva as minhas expectativas a um nível exosférico – mas isso é outra história). É admissível dizer que lhe faltam explicações, conteúdo, ligações de força sustentada entre algumas causas e efeitos, principalmente à medida que o final se aproxima; este é um livro que não pecaria por ser mais longo, mais profundo, ou, idealmente, ambos – atrevo-me a dizer, até, que é um enorme desperdício que não o seja. No entanto, pessoalmente, rejeito as insinuações que tenho lido, em múltiplas opiniões publicadas na internet, relativas à futilidade global da obra: esta não se trata de apenas mais uma história sobre pessoas ricas a ser ricas e pessoas pobres a ser pobres e a querer ser ricas. A sua grande força e valor não residem, sequer, na denúncia deste tipo de contraste social – embora a possua, e até bem feita –, mas na apresentação de diferentes, e igualmente válidas, formas de se ser pessoa; na exposição da eterna tragédia tragicamente não-trágica da existência; e, por fim, na avalanche narrativa que, desde o despoletar inicial, nunca perde o ritmo, com um culminar final que não revelarei mas que, posso dizê-lo, me apanhou completamente de surpresa – e isto, sim, é um evento raríssimo.

Comparações à parte, em mim, que de Capote nada mais conheço, Travessia de Verão assentou como uma luva – como uma lufada de ar fresco, na verdade, na difícil travessia deste Verão literal, como me são todas, e na esterilidade de puro prazer literário em que, contra a minha vontade, me tenho visto cair. Uma óptima introdução a um autor que, afinal, escreveu coisas tão inesperadas como “Breakfast at Tiffany’s” – que é apenas uma de três das suas obras que, cinco minutos contados depois de terminar a que aqui critico, fui imediatamente encomendar. E isso, creio, fala por si.

  • Classificação: 8/10 (Muito Bom)

 

Nota: A tradução portuguesa usada na edição da colecção BIS, da autoria de Manuel Cintra e revista por Maria João Freire de Andrade, que li e que aqui exponho, é francamente má: não só o tom adoptado é muito anacronicamente antiquado, como possui puros erros de interpretação de determinados termos e expressões, identificáveis até sem fazer o contraste com o original (basta conhecer relativamente bem a língua inglesa para compreender, perante uma frase com aparente falta de nexo, a intenção primária do autor). Desconheço se a tradução patente na edição da Dom Quixote é a mesma, mas, se possível, aconselho todos os interessados a ler a obra no inglês original, dado que, creio, só assim a verão tratada com justiça.

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