Todos os sonhos do que podia ter sido,
Deleites já vividos
Em futuros por desvendar,
Prazeres mandados para o ar,
Sem dúvida ou discussão
Na certeza mais efémera –
A da existência infinita.

Hoje, piso-os com cada passo
Com que pauto o dia-a-dia,
Infância futura perdida
De que só resta o traço,
Espirais de fumo desfeitas
Em mares de sargaço,
Nada mais do que suspeita tortuosa
Na engrenagem incessante da vida –
Sabores por viver para sempre já vividos,
E se, e se, e se,
Tudo o que poderia ser.

Existências imaginadas ao teu lado
Ainda antes de te conhecer,
A casa, o jardim, o gato,
E o cheiro do jantar a fazer
Enquanto nos aguardávamos,
Hoje tu, amanhã eu,
E o tempo sempre livre, e o tempo sempre aberto,
A receber o nosso amor
Como a mãe paciente ao filho pródigo.

O meu emprego em casa,
Os passeios no ar fresco da manhã,
A artista melancólica finalmente balançada
Que fizeste de mim,
A loja simpática que eu teria,
As pessoas que veria passar
Numa azáfama já não minha,
E os lares que habitaria,
Impossíveis paradoxos simultâneos –
De dia, o subúrbio americano;
À noite, o apartamento central –,
E todos os sítios para onde viajaria,
Hoje contigo, amanhã sempre solteira,
A cultivar saudades como flores de estufa.

E a juventude que me brotaria sempre dos lábios,
E a música no gramofone e nas colunas de última geração,
Congelada no mesmo instante,
E os risos, e os amigos, e os jantares e os bares,
E toda a calma, toda a paz do mundo que seria minha,
Finalmente minha,
De alguém que não sou eu.

De alguém que não sou eu.

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